quinta-feira, 20 de agosto de 2009

.... MEIO...






Depois de prometer a seus pais, os bisavós de Jéssica, que voltaríamos logo, Elisa pediu-me que a levasse até o bosque.
Chegamos, ela desceu do carro e ficou olhando para tudo em silêncio. Seu silêncio era tão respeitoso que também me mantive calado e apenas observei.
O bosque era amplo, cheio de árvores variadas. Havia uma elevação de terra conduzindo à vegetação mais fechada do bosque que era ladeada de pinheiros tão próximos uns dos outros que assemelhavam-se a uma gigantesca cerca pontiaguda.
De repente percebi que Elisa corria célere subindo a elevação e logo desapareceu driblando a cerca viva de pinheiros.
Pus-me em seu encalço, mas minhas pernas estranhamente pesavam, eu mal podia sair do lugar e não conseguia distinguir por qual parte da cerca ela infiltrara-se bosque adentro. Com muito esforço abri caminho por entre os pinheiros e deparei-me com uma vegetação desordenada e aparentemente sem trilhas. Como Elisa embrenhara-se ali e onde estaria agora era algo impossível de discernir.
Gritava seu nome, mas não obtinha resposta.
Saí do cercado de pinheiros e tornei a entrar várias vezes, procurando o possível caminho que Elisa fizera, mas todos eram iguais e de difícil acesso. Mal podia ver onde pisava pois o chão era coberto de galhos e folhas secas.
“Como diabos uma mulher grávida, prestes a das à luz, fazia uma loucura dessas?”Eu repetia para mim mesmo, sem parar. Até onde minha visão alcançava não havia lugar onde um ser humano pudesse estar sem ser atravessado por galhos.
Foi então que um raio de sol incidiu sobre meus olhos, escorreguei e caí numa clareira onde o raio de sol, que me cegara há pouco, agora iluminava uma gigantesca árvore que Elisa abraçava fortemente.
Ela pareceu dar-se conta de minha presença: virou-se sorrindo e disse coisas tão difíceis de se dizer com palavras: sobre quando era criança e pensava que fosse uma fada extraviada; os problemas que trouxeram amadurecimento e obscureceram sua infância; sobre quando concluiu que uma fada jamais viveria tão transtornada e, então, quis se enraizar naquele tronco forte. Um anjo aparecera e mostrara-lhe um livro que parecia uma bíblia. Ela o teria aberto e em letras douradas estaria escrito: “Conhecereis o Amor e o Amor vos libertará”. Lembro que Elisa disse: “Logo depois disso conheci você”.
Então a árvore virou uma montanha, ou o muro de um templo muito alto, não tenho certeza. Vi uma porta e disse-lhe para irmos embora. Ela atendeu docilmente e abrimos a porta.
Não lembro se ela ou eu. Também é estranho que não consiga lembrar-me onde estava a porta, se numa casa, parede ou onde. Nem do que era feita.
Ao atravessarmos virei-me e fechei a porta; percebi então que era a porta do carro que eu batia com força. Ao meu lado, Elisa sentada calmamente. Perguntei o que aconteceu. Ela disse: “Não sei”.
Passava um pouco do meio-dia e resolvemos voltar para a casa de seus pais.
Hoje penso que deveríamos ter ficado histéricos, mas de fato, permanecemos estranhamente calmos. Posteriormente averigüei que ambos tínhamos as mesmas lembranças do episódio que na família, ficou conhecido como “A Alucinação de Elisa e Loredano”; mas ela negou-se veemente a prestar maiores esclarecimentos.
Meu próprio comportamento me parecia absurdo e ilógico na ocasião e penso que não teríamos agido daquela forma se algo tivesse realmente acontecido.
E, com o tempo, deixamos de tocar no assunto, afinal, narrativa tão pouco racional só poderia merecer o descrédito de quem a ouvisse.
Nossa filha Stella nasceu naquela noite; tão clara e luminosa como só as estrelas podem ser.
Elisa somente retornou ao bosque após a morte de Stella no parto de Jéssica, a quem criamos.
Ela pareceu feliz ao retornar e não mais a vi chorar por Stella desde então, porém minhas tentativas de saber o que fora fazer lá ou o que havia encontrado mostraram-se tão infrutíferas quanto as vezes em que tentei arrancar-lhe respostas sobre a identidade do tal anjo ou a natureza da porta que cruzamos.
Muito tempo se passou e até mesmo Elisa já se foi.
Na cama do hospital em que estive internado as via claramente, sorrindo e acenando, um convite para juntar-me a elas, Elisa, Stella e... um anjo desconhecido.
...
Jéssica chora sobre o meu corpo; sentirá saudades, eu sei.
Mas nos encontrará um dia...
A todos. No bosque.

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