quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O Escritor e a Rendeira




“Um homem de palavras deveria ser um homem de palavra.”

Era a oitava vez que repetia para si mesmo desde que se sentara para escrever há 20 minutos. Nenhuma linha produzida. Tudo bem, 20 minutos não é quase nada... mas ontem foram 2h20 minutos de tentativas fracassadas e antes d’ontem mais 4.

“Quase a tarde inteira, até que a fome me chamou pra cozinha e daí já era quase hora de ver o jornal. Um escritor deve estar bem informado” - desculpou-se para si mesmo – “E alimentado. Não dava para se concentrar com fome.”
O escritor olhou para a folha quase em branco à sua frente.
“Hoje é preciso produzir para recuperar o tempo perdido.” Lembrou-se de que já fazia 4 dias que estava ali, na ‘Pousada do Repouso’, uma aliteração de propriedade de amigos que lhe ofereceram estadia para que sua mente supostamente criativa pudesse trabalhar sem ser interrompida. Ele tinha uma editora (ou seria melhor dizer que a editora o tinha?) e um prazo, mas ainda não tinha uma história. Na cidade, entre telefonemas de parentes, interfonadas do síndico e o barulho dos vizinhos, escrever tornou-se missão impossível. Isso sem falar nas tarefas inadiáveis que surgem do nada. Por isso ele achou melhor aceitar a oferta dos amigos. Com um pouco de sossego tinha certeza que poderia dar origem a uma obra-prima. Antes não tivesse aceitado, parecia que tanto sossego o estava bloqueando.

“Talvez no furdunço da cidade produzisse mais.”

Intrigado, pensou num instante sobre o porquê disso.

“Na cidade grande o barulho faz a mente da gente fugir pra encontrar refúgio na ficção. Esse silêncio todo daqui é como um mar de possibilidades, a gente tem vontade de sair, correr pelos campos, sabendo que não será atropelado pelo trânsito, e ver o que há além. Parece que o mundo inteiro pode se esconder ali mesmo, atrás da próxima árvore, quiçá até um mundo novo, como o que Alice encontrou quando seguiu o coelho... ou chegar a Narnya por um guarda-roupa...”

Olhou ao redor de seu quarto na pousada e viu que só havia uma cômoda.

“Tsc, tsc,” Não era hoje que ele criaria o próximo clássico sobre universos paralelos. Já que Tolkien continuaria sem rivais (Oxford devia ter uns baseados legais rolando pelos corredores) era melhor ele procurar outra fonte de inspiração.

Passou a mão no queixo e achou uns fios espetados na barba malfeita. “Preciso ir à cidade comprar gilete” mas a brancura do papel chamou-o de volta ao presente. “Depois eu vejo isso.”

Outro dia, entre uma rabiscada e outra, veio a irresistível vontade de traçar a árvore genealógica da família; ao fim dos cálculos descobriu que tinha 43,75% de sangue português, 25% de italiano, 18,75% de sangue negro e 12,5% de espanhol. Após concluir que era mesmo brasileiro tentou voltar ao livro, mas a inspiração não vinha mais.

Agora retornava ao seu recentemente criado ditado literário:

“ ‘Um homem de palavras deve ser também um homem de palavra’... acho que eu poderia citar essa frase em algum momento no livro, daria um bom efeito... Se pelo menos eu soubesse sobre o que vou escrever...”

E porque, como a neurolingüística explica, quando o ser humano procura solucionar algo, seus olhos movem-se para cima na tentativa de acionar determinadas partes do cérebro, ele avistou o lustre da sala em que se encontrava.

“Interessante... não tinha reparado nesse lustre antes....
Quantas histórias pode ter presenciado....Taí! Achei o tema: vou escrever sobre os amores, desventuras, cenas alegres e tristes, cômicas e cruéis que se desenrolaram abaixo de um determinado lustre. Pode até ter havido um crime! É isso mesmo – exclamou entusiasmado – a história vai se chamar ‘O Lustre’!”

Findo o primeiro dilema, esbarrou na próxima decisão prática: precisava escolher o local onde esse lustre estaria. Haveria de ser um local privilegiado para presenciar eventos variados.

“Uma casa antiga, gerações em conflito? Não, muito Allende.
Um museu... uma igreja... quem sabe a simples lamparina dum casebre de sapé? Não... melhor não...”

“Pensemos como um detetive” decidiu o escritor “Qual o local onde episódios curiosos poderiam tomar lugar? Um mercado público? Talvez, mas... um lustre num mercado público? Não, ficaria fora de lugar.”
E como todo Sherlock precisa de um Watson, o escritor saiu à procura do seu, movido 50% pelo amor à literatura 50% pelo princípio de fome que se anunciava perto do meio-dia.

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Depois do pré-almoço veio o almoço, e a sobremesa no pós-almoço, aí deu aquela leseira que leva ao soninho dos bem-comidos. E agora já era o meio da tarde e as folhas do escritor estavam tais quais eram pela manhã de ontem e de anteontem. Mas ele ainda se movia pelo sincero intento de preenchê-las com material de distinta qualidade.

Desprovido de idéia melhor, resolveu inquirir a opinião das pessoas próximas sobre onde poderia desenvolver sua trama, que já mudara de título para: “O lustre como Testemunha”.
Porém a maré não estava para escritor e todos os possíveis próximos estavam distantes, passeando pelas trilhas ou nas cidades vizinhas.

_ Em dia de sol ninguém esquenta cadeira na pousada, não. Só mesmo o senhor – informou a mulher entre uma agulhada e outra.

Na voz dela, única alma viva no local, ele reconheceu o tom de estranheza de imediato. Qual escritor já não teve endereçado um “que tipo esquisito” nas entrelinhas? Mas ele perdoõu-a automaticamente, pois ela era do senso comum, o tipo de pessoa que justifica o ditado “A voz do povo é a voz de Deus” como uma aberração da inteligência. Que culpa tinha a pobre diaba?

Todo burro é inocente. E por isso, ingenuamente, ele se pôs a observá-la. Ela era a ‘Eira’ do lugar. Cozinheira, passadeira, lavadeira, arrumadeira, todas as funções que terminavam em eira ela fazia. Era a ela que recorriam os hóspedes da pousada, em sua maioria estudantes e funcionários de escritório estressados em férias, quando tinham fome ou queriam pregar um botão.

Completamente concentrada ela tecia, aumentando ponto a ponto o rendimento do seu trabalho. Ele abstraiu-se no esquecimento de seus dilemas literários a contemplá-la e, quando deles se lembrou, começou a invejá-la. Com que profunda concentração ela manejava suas agulhas que nem se a Virgem à sua frente aparecia, cercada pelos anjos, do ofício não a desviaria. Vez por outra ela suspirava fundo, ou com o pulso coçava o nariz, mas não perdia o embalo de um ponto aqui, outro ali.

Ah, se ele pudesse trabalhar assim! Mas, é claro, há que se levar em conta que ela não precisava de inspiração como ele, era apenas mero trabalho manual, para qual o cérebro é pouco requisitado. Mesmo assim cobiçava a velocidade de produção dela. Se pudesse, como ela, ir juntando letra a letra, formando um texto dotado ao mesmo tempo de sentido e beleza.... Somente se copiasse um dicionário! Até as traduções tinham o desagradável costume de travar em algum trecho.
Ele admirava a agilidade na tecitura das rendas. Se era crochê ou tricô não saberia dizer; para sua ignorância de homem intelectual e urbano o universo artesanal da mulher era grego. Para ele eram tudo rendas! Todos os babados, delicados frutos de agulhas eram rendas, algumas de pôr nas roupas, outras de pôr nas mesas, toalhas, cortinas e outros fru-frus sem fim. Assim como a mulher decerto não saberia distinguir crônica de conto, poesia de poema. “É tudo palavra” diria.
Sim, ele era um homem de ‘palavras’. E ela era uma mulher de ‘linhas’.

Então se perguntou:

“Andaria ela sempre na linha?”

Arriscou maroto um olhar por sob a barra da saia dela, que, alheia, contava carreiras. Por baixo da coxa esquerda viu pequenos fios azuis que se insinuavam por suas pernas. Ainda assim ele gostou do que viu.

“Varizes têm um lado poético: são os rios já trilhados no mapa da vida. Por que mares ela teria navegado? Já se teria afogado nas ondas da paixão? O quão experimentada seria nas marés da vida?”

Era jeitosa mais do que linda, mas provavelmente não reagiria bem a uma investida sua.

“Melhor não arriscar.... Mas eu poderia, quem sabe, escrever sobre um escritor que vai a uma pousada e se envolve com uma cozinheira... Não, melhor me ater à história do lustre. Além do que, seria Nelson Rodrigues demais!”

“Ela parece tão quieta, quase não se mexe, não fosse pelas mãos... E se eu escrevesse que ele era uma assombração que aparecia debaixo do lustre em noites de tempestades? Diria a lenda que o marido a teria assassinado com as agulhas de tricô. Não, muito hitchcockiano. Ou ficaria melhor se ela tivesse se suicidado com as agulhas? Não, não, definitivamente não. Todos esses argumentos transcendentais eram excessivamente M. Night Shyamalan.”

Indiferente (?) aos devaneios dele, ela remexeu na cadeira.

_ Café, moço?

_ A senhora gosta de lustres?

_ Como assim ? Lustres? – de novo aquele “que cara esquisito!” nas entrelinhas.

_ De pendurar no teto, com lâmpadas. Antigamente usavam velas.

_ Ah... é, é bonito.

_ ...
_ ...

_ A senhora conhece algum lugar por aqui que tenha um lustre bem vistoso, assim diferente, que chame a atenção?

_ Vi, sim, um assim mesmo, aqui perto.

_Aonde? – entusiasmou-se

_ Na loja lá da central, mas o Zé disse que é muito caro, coisa de rico. Por que? O senhor quer comprar?

_ Não – suspirou – mas aceito o café.

_ Eu vou fazer, então, porque assim descanso um pouco do meu serviço também – ela levantou massageando o pescoço e esticando as costas, igual ele fazia quando levantava de sua escrivaninha – Isso cansa.

“Ahá, ela também se entedia! Talvez até tenha crises existênciais durante o trabalho. Quem sabe mudando o foco da pergunta, desse mato não sai coelho? Além do que, não tem mais ninguém aqui pra perguntar mesmo.”

_ Na verdade eu estou procurando um lugar onde coisas interessantes possam acontecer para ambientar a minha história... a senhora sabe, eu sou escritor.

_ Sei, sim. O senhor passa muito tempo escrevendo.

“Na verdade mais tentando do que escrevendo” ele pensou, mas não disse.

_ Devia se distrair um pouco, tomar um ar – ela continuou – É que nem eu, chega uma hora num güento mais ficar sentada ali com as agulhas, nem enxergo mais os pontos direito. Deve ser o mesmo pro senhor, deve ter hora que as letrinha miúda parece tudo igual!

_ É verdade... sem falar da dor nas costas!

_ Ôxi, homi, então... toma um café, areja as idéias, depois volta pra labuta.

_ É que... não sei se a senhora vai me entender... – enrubesceu – de tanto arejar a cabeça acho que entrou vento demais nas idéias e deve ter dado um furacão que levou as boas pra bem longe...

A mulher o surpreendeu. Primeiro porque tinha um riso claro, aconchegante. Segundo pelo o que disse:

_ Ôxi, se sim! Foi assim com o trilho de mesa de dona Lazinha. Ela encomendou pro casamento da filha um assim bem bonito, que tivesse flores, mas num disse bem o que queria, que ficasse por minha conta. Eu, bem feliz – que ia entrar um dinheirinho, o senhor sabe, né, a gente sempre precisa – nem me preocupei. Mas na hora de fazer, ai meu Deus, que aquilo não saía nem a pau! Toda vez que eu pegava pra fazer, acontecia alguma coisa, ou alguém chamava, ou o Zé precisava de eu fazer algo pra ele... tinha de ver, era sempre uma atrapalhação. Foi chegando o dia da entrega e nada de trilho pronto. Ai, que desespero que foi!

_ E como a senhora fez? – perguntou inesperadamente interessado.

_ Fiz, ué. Bem na véspera eu cabei ele, varei a noite fazendo pra terminar em tempo. Quando chega na data, não tem essa nem aquela; com ou sem vontade tem de entregar o serviço pra quem encomendou, porque senão a gente, além de dinheiro, perde o crédito, daí ninguém mais contrata a gente.

“Qualquer semelhança em minha relação com os editores será mera coincidência?”

_ Quem paga quer ver pronto e bem feito – continuou ela.

_ É a senhora quem inventa os motivos?

_ Não, já tem os traçados pro freguês escolher, daí é mais fácil, é só sentar e fazer. Mas às vezes eu invento um detalhezinho e mudo um pouco pra ficar mais bonito.

_ Que é mais fácil quando dizem o que querem, lá isso é! Nada pior do que tema livre...

_ Tem uns freguês que chega aqui e num escolhe nada, diz pra gente fazer qualquer coisa que tá bom. Daí quando eles vem buscar faz aquela cara que não gostou pra ver se a gente dá desconto.

_ É fogo, né....

_ O senhor recebe antes ou depois de escrever?

_ Às vezes uma parte antes, às vezes tudo depois – ele respondeu, mas estranhou a pergunta.

_ Eu também recebo um pouco antes que é pras linhas. O senhor precisa pra quê?

_ Pra quê o quê?

_ Pra que o senhor precisa receber antes?

_ Pra viver mesmo. Escritor ganha pouco.

Ela parecia ter ouvido o impensável.

_ O senhor não mora em casa com piscina? – inquiriu arregalada.

_ Casa com piscina? – riu – Não, eu moro em apartamento. Por que a senhora disse isso?

_ Eu pensei que toda gente letrada morasse em casa com piscina. Pra que essa trabaiera toda então?! - exclamou indignada – Se nem casa o senhor tem, por que não muda de profissão?

_É vício.

_Ah... eu entendo. O Zé fala: “Pára de pegar essas encomenda, muié, só perde tempo com essas traia na frente da televisão, nem vê a novela direito, e ainda vai pra cama reclamando de dor nas costas!” É que não dá muito lucro, sabe.... –se desculpou e continuou com cara de culpada – mas é como o senhor diz, é um ‘viço’ mesmo porque, mal acabo o almoço, já fico co’as mão doeno pra pegar no crochê!

“Ah, então era isso que ela fazia...”

_ Eu quando não consigo escrever também fico meio doido.

_ O dia que eu não faço umas boa carreira de ponto, parece que num é dia, diacho!

_ A gente faz por amor.

_ É isso mesmo, por amor de ver as coisa bonita pronta. Sabe, dá trabaio, mas depois a gente olha pros móvi enfeitado e dá gosto de ver aquelas belezura terminada. E os outro sempre elogia o trabaio da gente – sorriu faceira – é tão bão, dá um orgúio danado!

_ Eu gosto de ver o livro pronto na estante, convidar os amigos pra noite de autógrafos. Dá, sim, um orgulho danado de bom!

_ Daí a gente até esquece o trabalhão que deu, e logo tem vontade de fazer outro mais bonito ainda do que aquele! Não é, não?

Foi a vez de ele rir com vontade.

_ É assim mesmo! A senhora entende do assunto!

De repente não havia mais diferença entre eles, nem de nível nem de nada. Eram iguais pela experiência. Ele a achou mais bonita e ela viu-o mais interessante.

_ O senhor é casado?

_ Não.

_ Pensei que o lustre era pra sua esposa.

_ Não, é pra história que estou escrevendo. – ele riu.

_ Ainda bem, quer dizer, ainda bem pro senhor porque, se fosse, tenho certeza que ela ia implicar do senhor ficar trancado escrevendo o dia inteiro. O Zé vive implicando comigo.

_ Talvez não, se ela fosse escritora.

_ Ah, mas isso tem de ter muita sorte, é que nem ganhar na loteria. Imagina se eu ficasse esperando um marido que fizesse crochê que nem eu pra casar? Tava solteira até hoje.

_ ...
_ ...

_ Desculpe perguntar mas, quantos anos a senhora tem?

_ Vinte e seis. E o senhor?

_ Trinta e quatro. A senhora é tão nova....

_ O senhor também.

_ A senhora tem filhos?

_ Tenho não.

_ A senhora é de Salvador?

_Aonde...

_ Já vi que é de algum lugar da Bahia.

_ Feira de Santana.

_ E o que faz aqui no Paraná?

_ Vim por causa do Zé.

_ Ele é daqui?

_ É não, é de Brasília.

_ ....

_ É por causa da mãe dele que a gente veio.

_ Ela mora aqui?

_ Não, em Mato Grosso...

_???

_ ... mas o padrasto do Zé...

_ Ah, é daqui!

_ Não, é mineiro, mas quando veio pra cá a trabalho uma vez, conheceu os donos da pousada. Daí a mãe do Zé achou que era uma boa a gente vir trabalhar aqui.

_ Acho que seus pais também são mineiros.

_ Painho é de Três Corações! Como o senhor adivinhou?

_ Intuição.

Ela lhe deu um olhar de mistério.

_ Notei que a senhora disse “a mãe do Zé” e não “a minha sogra”; não se dá bem com ela?

_ É que falando assim o problema é só dele, já se a sogra é minha...

_ Ahhh, muito esperta a senhora! E tem senso de humor...

_ O senhor não conhece a música? Toda menina baiana tem tudo isso e muito mais.

O sorriso que ela deu foi tão amplo que ele lhe viu a úvula.

_ O senhor é daqui mesmo?

_ De Curitiba.

_ E o senhor escreve muito?

_ Depende da época; tem tempos que mais, tem tempos que menos.

_ Quem ensinou o senhor?

_ Como assim?

_ Quem lhe ensinou a escrever? Lá no nordeste as artes de agulha passa assim de mãe pra filha, é de família. O senhor não teve um pai ou avô que lhe ensinou não?

_ Tive não – ele começava a pegar o sotaque dela.

_ O senhor aprendeu sozinho?

_ Com os livros, eu acho...

_ Que idade o senhor tinha quando começou a escrever?

_ Eu estava na adolescência, lia muito, tive vontade, acho que foi isso. É, foi assim que começou.

_ Eu aprendi os primeiros pontos com 7 anos; minha avó que ensinou – declarou orgulhosa. Se eu tivesse uma menina, ensinava ela também. O Senhor tem filhos?

_ Tenho um garoto de doze.

_ O senhor vai ensinar ele escrever?

_ Eu até que tento, mas por enquanto ele tá mais interessado no skate.

_Engraçado – ela ondulou a saia, meio como quem não quer nada, talvez inconscientemente – o senhor não é casado e tem filho e eu sou casada e não tenho filhos. Como é que a vida dá umas volta engraçada, né? Parece até os entremeios que a gente faz com as agulhas...

_ Se isso fosse um livro, e a senhora ficasse viúva, ia dar certinho.

_ Vixê, homi, fale isso não – ela disse sorrindo e nem um pouco ofendida – Se Zé lhe ouve, lhe mata.

_ Tava brincando.

_ Tava mesmo?

_ A senhora já ouviu dizer que às vezes a vida imita a arte?

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Era meia-noite e meia e a escrita ainda rendia. Com certeza vararia noite adentro escrevendo, tal qual máquina, pois a inspiração fluía a cântaros. Já antevia a obra pronta. Seria certamente um sucesso, poderia até virar filme! Ajudaria a elevar o cinema nacional. Sem dúvida, ao menos um especial para a TV daria. Até imaginava os atores.

Graças a ela recuperara o tempo e a inspiração perdidos. Entre um ondular e outro da brisa na cortina do quarto ela lhe falara sobre o Paço Municipal, o local dos escândalos da cidade. De amantes de vereadores passando por quebra pau entre partidos a assassinato de político, de tudo já tinha ocorrido ali. Que melhor lugar para um lustre imponente testemunhar fatos insólitos do que a Câmara Municipal ou uma repartição pública?

Haveria de colocar um agradecimento a ela nas primeiras páginas do livro. Mas não poderia colocar seu nome verdadeiro. Ela entenderia, pois ele lhe falara de mitologia grega entre um chamego e outro. E, quando ele lhe mandasse um exemplar do livro pronto, autografado, quem sabe ela leria, entre um novelo e outro, e dele se lembraria?

Grafaria apenas “Para a Ariadne da Pousada do Repouso”.

Há que se poupar o Zé.




4 comentários:

  1. Vc ainda num tem uma casa com piscina?
    tsc tsc tsc...

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  2. Americo.

    adorei o conceito: um homem de palavras deve honrar a sua própria palavra.

    vou meditar muito sobre isso.

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  3. Amei essa história! Tive umas reações que me fizeram rir de mim mesma, conheço o ofício 'das linhas' e é uma terapia viciante. Que paralelo interessante! Só você mesmo pra sacar a igualdade entre coisas aparentemente distintas. Nunca tinha pensando nisso. Amei! Muito bom mesmo!!!!!

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