quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Pipoca com Amnésia



Não haveria de ser mesmo muito diferente. Depois de tanto tempo nada mudou. E com ela não havia sido diferente.
Os anos se sucederam como tacos de borracha em câmera lenta num jogo de golfe.
Ela se sentia, depois daquela noite, diante da vida, exatamente como uma pipoca com amnésia.
Ela havia estado no fogo, no meio do caldeirão, sob pressão, não sabendo se vestia ou não o seu vestido de noiva.
Alguma coisa aconteceu, decerto.
Mas agora ela não se lembrava. Havia se aberto ou não? Exposto por inteira, se virado do avesso?
Ela era um grão de milho e não sabia como as pessoas se posicionariam quanto a isso.
Para ela o amarelo do grão representava o “externo”, a cor do sorriso com o qual ela enfrentava o mundo, quase não querendo fazer parte da luta; e quando o milho estourava era o seu interior que saía pra fora, toda a sua candura e simplicidade, naquele branco composto de cores mil. Cada uma um aspecto da sua personalidade.
O seu medo era que os outros não compreendessem e vissem no dourado que se esvaía todo o brilho que ela fingia ou podia ter dando lugar a um branco insosso que simbolizava uma alma vazia do nada.
Era dessa interpretação errada que ela tinha medo.
E era desse medo que veio a amnésia.
E agora ela não se lembrava se havia estourado ou não.

Se havia se libertado ou se escravizado perante o julgamento alheio.

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