segunda-feira, 23 de abril de 2012

Deus, o Diabo e as Filhas de Jó



Era uma vez, uma menina que ia com sua mãe, de porta em porta atrás da sabedoria de Deus.
Iam elas a todos que diziam ter as respostas e conhecer os mistérios das leis de Deus.
Iam elas porque gostavam, e mesmo se não tivessem problemas iriam, mas iam também porque moravam com dois demônios, que as aprisionavam no limbo e elas queriam saber porque Deus as castigava tanto, permitindo que os demônios as atormentassem à exaustão.
Elas não buscavam vingança contra esses demônios, mesmo eles sendo perversos e renitentes no mal, sugando-lhes o sangue diariamente e as atormentando com vis mentiras e torturas psicológicas dos mais diversos tipos.
 Os demônios eram muitos espertos, e quem de fora olhasse não acreditava a princípio que eles eram tão maus assim.
O primeiro demônio era acima de tudo arrogante e ignorante, e tinha dentro de si um lado bom, que às vezes vinha para fora, mas mais frequentemente endereçado a outras pessoas, que não sua família, as quais ele buscava impressionar. Ou ao segundo demônio, seu filho, que ele acreditava ser seu herdeiro amado.
O segundo demônio entretanto, nasceu mais forte do que o primeiro, e fortaleceu a maldade de seu pai, embora no fim da vida deste, provou-lhe com maus tratos  quando ele estava enfraquecido pela idade e pela doença que nunca de fato o amara.
O demônio mais jovem, ao contrário de seu pai, nunca ajudava ninguém, e todos que dele se aproximavam eram ludibriados, e cedo ou tarde roubados, agredidos, espoliados e vilipendiados. O demônio mais jovem não sabia o que era honra, decência ou honestidade, e embora desconhecesse, como todos os demais demônios deste mundo e de todos infernos,  o significado da palavra gratidão, ele costumava cobrar isso dos outros, e sentia-se no direito de vingar-se de quem achava, em sua mente doente, que lhe devia algo. Mesmo que fossem as boas maneiras que ele nunca teve para com ninguém.
Como todos os demônios, eram sujos, mentirosos e violentos.

Cansadas de tanto sofrer, bateram um dia mãe e filha a uma porta onde um oriental lhes disse que eles não eram na verdade demônios. Elas é que pensavam que eles eram. Elas deveriam todos os dias recitar orações e repetir que eles eram maravilhosos filhos de Deus perfeitos. Na verdade deveriam agradecer a Deus por não haver benção maior do que conviver com demônios tão perfeitos como aqueles.
Mãe e filha tentaram seguir o conselho do mestre oriental, mesmo porque não tinha opção melhor. Entretanto os demônios não melhoraram. Nem um pouquinho. E elas acabaram se sentindo idiotas por sofrer e ainda louvarem seus algozes.

Tentaram então uma segunda porta, onde um homem de estola de roxa lhes disse que orassem a Santa Mônica , mãe de Santo Agostinho, que lhes concederia o mesmo milagre que obteve com a intercessão da Virgem Maria, de ter um filho redimido dos seus pecados. A mãe orou, mas Santa Mônica, decerto estava ocupada com muitas outras mães que tinham filhos perversos, pois o filho demônio, não melhorou nem um pouquinho. ao contrário só piorava.

Na terceira porta havia uma mulher que estudava demônios e lhes disse que na verdade eles não existiam, mas eram reflexo da mente delas. Culpava prioritariamente as mães, dizendo que ninguém nascia demônio, e que algo ela devia ter feito de muito ruim, para estragar a cabeça do demoninho e deixá-lo tão transtornado. Ela disse que mãe é quem deveria fazer um tratamento, e deixar o infante demoninho ser feliz.
Aparentemente a mulher que estudava demônios precisava estudar mais, pois o conselho não adiantou de muita coisa, e o demônio 'infante' foi expulso da escola, roubou um professor e engravidou uma adolescente.

Para piorar, após a morte do demônio pai, as coisas ficaram ainda piores e onde já não havia nem paz, nem amor nem respeito, entrou também a necessidade. Alguns amigos penalizados trouxeram víveres e deram conselhos. Alguns elas já tinham seguido, outros não acreditavam ter serventia alguma, mas nada diziam pois eram necessitadas e queriam demonstrar gratidão. Outros elas procuraram seguir, mesmo em dúvida. Mas de nada adiantou e o demônio filho só piorava dia a dia. Roubava, mentia e envergonhava mãe e filha em toda vizinhança. Por onde andava só o mal espalhava. Ainda por cima, exigia uma herança que não existia além do precário teto onde moravam, do qual se alardeava dono, embora dependesse da mãe e da irmã por um prato de comida, pois era vagabundo, perdulário, só se envolvia em dívidas e se relacionava com outros demônios de índole semelhante dos quais a mãe e a filha só queriam distância.



Na quarta porta, assim que mãe e filha chegaram lhes impuseram as mãos, lhes ofereceram água e lhes deram respostas. Disseram que era culpa delas embora disso elas não se lembrassem. Tudo ocorrera no passado e agora era tempo de expiar más ações pregressas. Mas se elas se esforçassem, orassem em casa e fizessem tratamentos espirituais, tudo melhoraria, pois este, diziam, era o Plano do Mestre.
Elas fizeram os tratamentos por anos, sem perder a fé, beberam litros d'água e conheceram sovacos com todos os tipos de formatos e odores, de tantos obreiros que lhes impuseram as mãos. Mas nada surtiu o menor efeito.

Alguns anos depois, em decorrência das ações do demônio,  elas perderam a casa e se mudaram para um lugar muito ruim, onde não tinham nem família, nem amigos e nem obreiros com sovacos solícitos a lhes oferecerem sua confortadora atuação.

Então algumas pessoas lhes disseram que a porta onde haviam entrado era a causa do grande mal de suas vidas, que ali era a residência do Satanaz e por isso elas não tinham sido libertadas nem eram merecedoras da misericórdia divina. Era preciso renunciar a essa fé amaldiçoada que seguiram por anos e aceitar o Mestre verdadeiro como única salvação. Mãe e Filha conversaram e não entendiam, pois já haviam aceitado o Mestre há muito tempo. Também não acreditavam que o Mestre estivesse contido atrás de uma única porta. Ainda assim, pensaram, 'não custa tentar'. Foram a uma reunião da quinta porta. Acharam todos muito simpáticos e tudo muito bonito, mas as explicações um tanto ilógicas ou infantis. Coincidentemente o demônio filho fora convidado para ir a uma filial da quinta porta com amigos que ele pretendia explorar. Deram-lhe um livro sagrado e ele disse que aceitava seu mestre. Chegou a postar no Facebook que "Tudo podia naquEle que o fortalecia".
De longe a filha viu a postagem e não acreditou....
Tempos depois mãe e filha acharam páginas do livro sagrado que ele havia ganhado rasgadas, utilizadas como papelotes para o feitio de cigarros estranhos.

Na sexta porta foram até pessoas que lhes diziam que os demônios eram na verdade doentes. Que eles precisavam obter uma cura, e que era indispensável para esta o papel da família. A mãe foi numa reunião, mas a filha não acreditava que esta porta ajudaria, pois conhecia o demônio de longa data, desde quando ele não fumava cigarros estranhos, e não achava que elas faziam a menor diferença no cárater (ou na falta de) dele, e por isso não foi. Numa operação espetacular, cheia de promessas falsas e pseudo-eficácias dissimuladas sob a égide da fé, demôninho foi levado pra um lugar bonito, em meio a natureza, para ser curado. Pouco tempo depois demoninho fugiu, e estava de volta, tão demônio quanto antes.

Um dia, muitos anos depois e as mesmas desgraças repetidas ciclicamente, uma sétima porta se abriu, e por ela gente que dizia já ter vivido aqui mandava por um fim a essa situação. Que 'cabra safado tem que penar só e não receber abrigo de duas mulé que mal tinham para si sustentar'. Vários outros mestres dessa porta vieram até elas para dizer a mesma coisa. Pelo menos foi um alívio não mais ouvir alguém lhes culpar.

Até hoje elas tentam fazer isso. Mandam o demônio embora, mas ele não vai.

 Disseram que existe agora uma delegacia especializada pra mulheres vítimas de demônios. Talvez agora possam lhes ajudar.

Mas elas já estão velhas, cansadas, doentes e cronicamente infelizes. Na porta por onde entrou a necessidade mais de 20 anos atrás, Esperança já se foi há muito tempo.

Aprenderam muito em todas as portas que bateram. Nem tanto sobre Deus e seus mistérios. Sobre isso elas aprenderam sozinhas. Mas aprenderam sobre o ser-humano. Muito.

Recentemente a filha, conversando com um desses mestres sábios que por aqui já andaram em outros tempos e que hoje se comunicam pelos corredores atrás da sétima porta,  perguntou:

"- Será que o senhor poderia me responder uma coisa? (e contou toda a história resumidamente) Em tantas portas batemos e nenhuma adiantou. Sempre quiseram nos encaixar dentro de suas teorias e nós até tentamos nos encaixar, pois se isto fosse resolver nosso problema, estaríamos dispostas a rever nossos conceitos, nossas crenças, enfim, tínhamos humildade e esperança para mudar e vencer. Agora pai, ao contrário do que reza a maioria, que o sofrimento ensina, e purifica a alma, acho que só me tornei mais arrogante, pois não acredito no que mais ninguém me fala, e acho que o mal deve ser cortado pela raiz, com pena de morte e tudo pra quem faz mal aos outros. Acho que não me espiritualizei, e sim me materializei, pois vejo que as coisas da matéria tem de ser resolvidas com as ferramentas disponíveis na matéria. Acho que só perdi tempo esperando a justiça de Deus agir. Acho que nem acredito mais nela. Entrei por um caminho em que me dispus ao sacerdócio junto a sétima porta, que foi a que maior conforto me deu e com a qual mais me afinizei, para ajudar outras pessoas, mas eu mesma, só acredito vendo. Minha Fé está atrelada a eficiência e comprovação de resultados. Antes eu cria por crer, agora acho que virei São Tomé.
Batemos em portas que são famosas por levarem a caminhos de luz, paz e prosperidade. Mas elas não nos conduziram a nada melhor do que o inferno em que já vivíamos. O senhor tem alguma resposta a me dar, algo que possa me esclarecer sobre isso?"

O homem da pena branca, para espanto dela, respondeu:

" - Filha, tanto você como sua mãe passaram numa iniciação no astral que agora está sendo reconfirmada na matéria. Chama-se iniciação de Jó. Leia o livro e peça inspiração pra você entender o que isso significa."

A filha releu o livro e, como da primeira vez, se revoltou.
Deus e sua boca grande, provocando a inveja de Satanaz -  e o que Jó tinha a ver com isso?
Deus e o Diabo jogam xadrez e Jó é quem paga as contas?

O livro dizia que depois Jó teve em dobro tudo o que Deus permitiu que o Diabo lhe tirasse. Ele teve que orar e oferecer sacrifício de animais.
Ao reler o trecho da bíblia, a filha reconheceu nos amigos que querem por toda lei achar um defeito, uma culpa em Jó que justifique o que lhe aconteceu, todas as pessoas por todas as portas pelas quais passou. E também por pontes e estradas onde familiares, vizinhos e amigos lhes viraram as costas, tal qual fossem amaldiçoadas. Coisa que de fato elas também já se julgavam ser.
O homem da pena branca falou que era possível revogar essa iniciação, mas que não aconselhava, pois faltava pouco para chegar ao final.
Mas e agora. O que ela deveria fazer?
 Holocausto não faria, era vegetariana. Além disso não achava lógico que Deus apreciasse churrasco acima de todas as coisas.

"- Devo orar? Pedir perdão? Mas se nada fiz, tal como Jó, pedir perdão por quê? Por ter perdido a Fé? Por estar cansada demais para acreditar em finais felizes? Por que a Justiça Divina se parece cada dia mais com um mito?Eu quero acreditar. Mas primeiro, preciso de um milagre. Como não acredito que ele venha, é provável que de fato ele nunca aconteça."

(to be continued)



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