sexta-feira, 31 de outubro de 2014

HALLOWEEN X DIA DO SACI






Tenho visto com muito espanto uma avalanche de posts execrando o Halloween em prol de que se comemore O Dia do Saci.
Segundo a Wikipedia:

"Consta do projeto de lei federal nº 2.762, de 2003 (apensado ao projeto de lei federal nº 2.479, de 2003), elaborado pelo deputado federal Chico Alencar, (PSOL - RJ) e pela vereadora de São José dos Campos Ângela Guadagnin (PT - SP), com o objetivo de resgatar figuras do folclore brasileiro, em contraposição ao "Dia das Bruxas", ou Halloween, de tradição cultural celta."

Isso só podia ser idéia de uma anta, visto que o Saci, adorável figura do nosso folclore, sempre foi comemorado em agosto junto a todas as figuras do rico imaginário brasileiro no mês do folclore.
Essa anta, que obviamente não tinha mais o que fazer, não pesquisou pra saber que o Halloween, ou Samhain, é apenas uma variação de uma festa comum a todos os povos de origem celta - e portanto TAMBÉM faz parte de nossa ancestralidade - apenas com uma 'roupagem' mais adequada aos países do hemisfério norte, onde também no México, celebrando La Santa Muerte, serve além de celebrar a memória dos que se foram, preparar as crianças para lidar de uma forma mais leve com um tema do qual ninguém escapará em vida (pun - intended). Aqui nosso fúnebre Finados pode se beneficiar e muito dessa visão.


Não precisa ser um gênio pra perceber que a popularização do Halloween é inevitável num país onde o avanço dos falantes de Língua Inglesa é uma necessidade imperativa e um idioma não se aprende sem imersão na cultura. 


SE o folclore brasileiro não é valorizado como deveria a culpa não é do Halloween, mas de politicos estúpidos que focam no espelho para tentar acertar balas perdidas em seus monstros imaginários.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O Pai de Santo - parte III final

O Pai de Santo
# Parte 3 #
Pai Arruda
conto psicografado em 16/03/2014 por Jennifer Dhursaille






Um crê em si mas duvida de todos os outros e até das entidades. Outro que admira a luz nos outros mas não admite que ela possa brilhar também em si. Que bela dupla! Vamos juntar para ver se a acidez de um anula a amargura do outro. E quem sabe dessa mistura não se adoça a vida de ambos. Tá me entendendo, num tá?”

Seu 7 Encruzas para Marita durante a primeira incorporação de seu médium Valtinho, pedindo a esta que o apresentasse a Eustáquio.

             

   Eustáquio preciava de um milagre; Valtinho de um choque de realidade.
                Quando dois sacerdotes, com potencial para ajudar a muitos, arriscam se perder – não por frescura! Mas por ferimentos reais dos espinhos que acompanham o poder – logo o Astral vem em ajuda, para não deixar cair do ninho passarinho que foi feito para bem longe voar.
                Marita procurou Eustáquio, por ser este mais experiente, a fim de buscar ajuda para seu amigo Valtinho. Explicara a situação, que o cético pai de santo um tanto curioso ouvira.
                - Mas ele tem o chão* dele aberto, não tem?
                - Tem, que herdou da família, mas na prática quem toca são as tias e as irmãs, que ele está cada dia menos interessado. Ele foi assim, meio que entronado à força no cargo pela vontade da avó, não sabe?
                “Que nem eu” - pensou Eustáquio.
                - Mas agora está louco para largar tudo e ser professor. Vai fazer faculdade e acho até que é por isso que aconteceu o que aconteceu e que eu estou aqui te contando. Como eu disse, ele nunca tinha incorporado esse tipo de entidade de Umbanda, só orixá vinha nele, às vezes, quando ele tava mais de boa vontade lá no terreiro e quando era uma das tias que ele gostava que tava tocando a roça... Porque se fosse uma que ele não gostasse, ele nem aparamentado ia, só pra fazer desfeita mesmo! Nem tava nem aí pro santo!
                - E como é que ele tá agora?
                - Assustado! Assustadíssimo! Ainda mais que não se lembra de nada do que o exu disse. Tive eu que passar pra ele todos os recados, e o principal deles era que esse exu falou que queria que ele fosse ter uma conversa sobre Fé e Responsabilidade com um bom pai de santo daqui. Daí falei: “Ó, Valtinho, o único pai de santo bom, de moral ilibada que a gente conhece aqui na baixa é Pai Eustáquio. Eu, fosse tu, ia lá falar com ele.”
                - Diga para ele vir na sexta, lá pelas três da tarde que eu vou jogar os búzios e ver o que sai pra ele; se tiver alguma obrigação, algum impedimento, ele, sendo pai de santo também vai saber o que fazer. A minha parte eu faço, agora... aceitação, você sabe, né Marita, é coisa de dentro de cada um!
                - Eu sei, é claro, Pai Eustáquio, mas embora assim teimoso feito mula, Valtinho é menino de muito bom coração. Merece uma segunda chance, não só de orixá mas também, eu acho assim, na minha opinião, de ouvir uma palavra de alguém assim mais sério, porque sempre fez as coisas mais empurrado pela família dele. Às vezes a juventude de hoje precisa entender melhor os 'porquês'. O que sempre irritou Valtinho foi dizerem que ele tinha que fazer as coisas por obrigação, porque tinha e pronto! Isso foi deixando ele indignado, entende?
                - Eu entendi. Diga a ele que se quiser jogo os búzios. Que venha na sexta.
®
                E sexta chegou com Valtinho pela primeira vez na vida adiantado, cerca de quinze minutos, batendo à porta da frente da casa de Pai Eustáquio de Xangô Airá.
                Eustáquio abriu a porta e estranhou. “Menino de tudo” - pensou. Olhar tão jovem num semblante infantil atormentado. Pena veio instantaneamente, e no combustível da compaixão, Eustáquio convidou o menino-pai-de-santo a adentrar o barracão; o pôs à vontade sentado na parte posterior do templo reservada aos atendimentos, e deixou-o contar, abrir seu coração, de cada dúvida, medo e emoção que Valtinho experimentara, desde os 9 anos na lide de futuro pai de santo escolhido do seu barracão. Ele tinha sangue real**, isso Eustáquio podia ver, e experimentara coisas que se fora consigo, muitas de suas dúvidas não existiriam. “Como então?” se questionava, se a experiência real ele tinha, por que duvidaria? Eustáquio tinha mais estudo, mais palavra explicada e uma maior tendência à filosofia, mas no terreno da comunhão com as energias únicas de orixá, Valtinho saia de longe na frente. Só não estava acostumado a 'compartilhar' seu corpo e sua mente com o que considerava um “egun”, o misterioso homem de roupas escuras e abotoadura de ouro que lhe enroucara a voz e deixara bem claro à sua amiga Marita, no lumiar da noite, numa esquina noturna onde nem sapo coaxa e nem coruja pia:
                “ - Esse não vai sair do serviço, não! Pode avisar: é 2 passo pra fora e 7 pra dentro do barracão! Quer ir estudar, pode, mas se quiser, vai ser doutor de branco e palha da costa, sentado na cadeira que é o trono dele lá no barracão!”
                - Como é que pode a gente não ser dono da vida da gente!? - inquiriu esperançoso da compreensão do colega de vaticínio.
                - Mas tudo tem um porquê, né, Valtinho? Uma coisa que minha avó sempre dizia, e que até hoje não posso de tudo desdizer, é  que orixá sabe o que vai fazer de fato a gente feliz na vida da gente, e a gente que às vezes foge do próprio destino no desejo de experimentar coisas diferentes.
                - É, isso é... Mas, me diga uma coisa: Marita me contou que você também foi feito por sua avó, que também herdou cargo hereditário. Você nunca se perguntou o que teria sido da sua vida se suas escolhas tivessem sido diferentes?
                - O tempo todo. Não tem um dia em que eu não me levante da cama e ao fazer a barba diante do espelho não me imagine vivendo uma vida completamente diferente – concluiu, a ver perplexa a face de Valtinho ao espelhar a sua própria frustração.
                - E por que você nunca largou tudo?
                Eustáquio riu e fez sinal para uma mocinha trazer um chá gelado para os dois.
                - Porque lá pela minha terceira xícara de café eu já me lembrei porque é que eu estou nessa vida e não fui embora ontem, nem anteontem, nem antes de antes de ontem...
                - Obrigado pelo chá – dirigiu-se tanto a Eustáquio como à menina. Aliás, sem querer interromper, já interrompendo, é só uma coisa que eu queria comentar desde que cheguei aqui! É que eu acho lindo, lindo seu orixá! Desde menino meu sonho era receber Xangô Airá! Juro!
                Eustáquio riu; Valtinho era muito engraçado, de uma espontaneidade natural que contrastava com a parcimoniosa ponderabilidade do pai de santo mais velho.
                - Você recebe quem na sua coroa?
                - De verdade, de verdade mesmo, quem eu mais sinto é Iansã, mas minha avó decidiu por bem passar Ogum na frente*** e me entregou a ele, o que obviamente não adiantou nada! Então, embora eu não use o título, o certo mesmo é Pai Valter de Ogum Dilê. Ai que horror! O santo que me desculpe, mas eu acho uó esse nome! Preferia ser mil vezes Pai Valter de Iansã, porque é muito mais a minha cara, vamos combinar?
                - Eu era de Logunedé – disse num suspiro, depois de respirar fundo, pai Eustáquio.
                - Num brinca? - exclamou sério, Valtinho.
                - Minha avó, aparentemente pelo mesmo motivo da sua, passou Airá na minha frente. Dizia ela que queria garantir a sucessão do terreiro através de uma filha minha.
                - Você é casado? Já tem filhos? - perguntou um tanto receoso da resposta.
                - Não, e duvido que vá ter! - respondeu Eustáquio balançando a cabeça – Já tenho problemas demais para cuidar e minha avó ainda queria me arrumar uma família! Já chega a do terreiro!
                - Ah, bom! Bem, sempre se pode adotar, num é mesmo? Vai que um dia você se casa e adota uma menina bem porreta daquelas que a gente olha e já sente que vai girar muito no barracão. Daí ela fica sendo a sua herdeira! - sugeriu com certo excesso de entusiasmo Pai Valter de Ogum Dilê.
                Após alguns instantes de silêncio, Eustáquio retomou o rumo da conversa:
                - Mas, então, como te falei, eu acho que estudar vai dar o equilíbrio que você está precisando na sua vida e na sua idade. Eu noto que você se incomoda muito com o desrespeito dos outros. O diploma vai melhorar a forma como você se vê e também ajudar a seus filhos no terreiro a repensarem o seu próprio valor e poder dentro da comunidade.
                Valtinho estava encantado com tudo o que Pai Eustáquio falava. Um sorriso amplo no rosto que parecia que jamais o deixaria. Mas deixou. Assim que Pai Eustáquio a figura de preto evocou.
                - Quanto ao exu de Umbanda que você recebeu, estão cada vez mais comuns as manifestações dessas entidades, que não devem ser consideradas 'eguns', mas sim como manifestação da nossa ancestralidade coletiva nos ilês. Aqui mesmo no meu tem quem receba preto-velho e boiadeiro, uns dois recebem exu e bombogira catiços assim que nem esse que você recebeu; caboclos todos recebem – isso desde o tempo  do segundo marido de vóinha. Eu mesmo com quinze anos já recebia dois caboclos diferentes; você não deve de se espantar, não, muito menos de ter medo.
                - Mas eu já vi Exu Elegbara, tem um filho dele no barracão. É uma coisa muito diferente, viu? Não só no visual como na energia que a gente sente. Eu até agora não sei categorizar esse ser que me dominou na frente de um poste e conversou com Marita através de mim cerceando todos os meus intentos! Ai, me desculpa, mas acho muito desaforo!
                - Olha, Valtinho, eu sinceramente não tenho a experiência em 1ª pessoa no nível que você tem. As minhas dúvidas todas vêm do fato justamente de que eu queria uma prova assim cabal, que acontecesse alguma coisa que quebrasse a minha vontade em quatro, não me deixasse argumentos e nem escapatória para eu 'achar' mais nada que não fosse a realidade inquestionável do fato, e nada mais do que o fato fizesse qualquer sentido. Embora eu te entenda, do meu ponto de vista você foi abençoado e não 'cerceado' porque você nunca vai ser atormentado pelo tipo de dúvidas que eu tenho, que, acredite, são bem difíceis de lidar!
                - Mas Eustáquio, você passa uma firmeza, uma certeza de que sabe daquilo que está falando para os outros! Eu queria poder passar uma imagem assim para os meus filhos de santo, mas eu sou muito 'tranqueira'...
                - Não fale assim! Se orixá escolheu você é porque sabia que você podia dar bom fim à sua missão e ao sagrado serviço de representá-lo na sua comunidade. Só não será assim se você não quiser.
                - Foi bem isso que o tal Exu das 7 Encruzas falou para a Marita... que ele não ia deixar eu me desviar da rota que já existia para mim...
                - Me parece que o que te incomoda é a noção de que os outros estão escolhendo o teu destino, e não você...
                - É isso! Exatamente isso...
                - Mas veja, se foi você que determinou, junto ao orixá antes de nascer qual seria o teu caminhar nestas bandas do lado de cá, daí você pode encarar esses recados do seu 7 Encruzas como um lembrete de você mesmo para que você não se esqueça da jornada que decidiu lá atrás que queria trilhar.
                - Se for assim, daí o seu 7 Encruzas deixa de ser um inimigo enxerido para ser meu melhor amigo; aquele que vem me lembrar do que eu mesmo quis, mas esqueci. Não é isso? - elaborou Valtinho, dando seu melhor modelo de aluno exemplar.
                - Eu costumo dizer que a amizade se prova com o tempo, tanto as com o povo daqui como com os seres do lado de lá. Mantenha a calma e espere para ver como as coisas se encaixam com você seguindo os dois caminhos, o acadêmico e o espiritual. Vá equilibrando como se fossem duas obrigações distintas mas que se cruzam na garantia do bom sucesso da sua missão.
                - Vou fazer isso, sim. Ai – segurou nas mãos do novo amigo – foi tão bom ter vindo conversar com você!
                - No que precisar estarei sempre à disposição – respondeu um tanto tímido, meio sem jeito, mas pleno de retidão e a melhor intenção, o pai mais experiente.
                Despediram o mais novo e o mais maduro, um caminhando mais tranquilo, o outro adentrando o lar com o coração mais cheio de esperança. De longe veio o grito, lá do meio da rua mesmo, fruto da ansiedade do menino-homem em aliviar sua curiosidade e tormento:
                - Ô, Eustaquinho, diga lá, o que é que aquela terceira xícara de café lhe faz lembrar que você não desiste pra tudo largar?
                Eustáquio respondeu sorrindo:
                - Tem sempre alguém no mundo perdido, precisando de um ombro ou de uma palavra amiga.
                - Assim que nem eu? - riu-se andando pra trás o Valtinho.
                - Que nem eu!

*terreiro
** mediunidade
*** uma prática comum, embora equivocada, em alguns terreiros que consideram que determinadas filiações de orixás induzem ao homossexualismo, e por isso, tentam 'mudar' o orixá de cabeça da pessoa entregando-a a outro
               

  Originalmente
Esse conto foi publicado em três partes, quinzenais.
As pessoas que não desejavam esperar pelas publicações eram convidadas a fazer uma doação de qualquer valor para receber integralmente o conto em formato de arquivo [.doc] diretamente na sua caixa postal.
Se você chegou aqui após a data da publicação da terceira e última parte, peço que você dê um minutinho do seu tempo para clicar no link abaixo e conhecer o maravilhoso trabalho do  www.clubedosviralatas.org.br . 
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Obrigada!
Jennifer Dhursaille


domingo, 14 de setembro de 2014

O Pai de Santo - parte II

O Pai de Santo
# Parte 2 #


Pai Arruda
conto psicografado em 09/03/2014 por Jennifer Dhursaille
Valtinho vinha no ônibus, após dar entrada nos papéis para sua inscrição em um dos planos assistenciais para alunos de famílias de baixa renda e minorias, que antes desprezadas, agora visadas eram nas investidas governamentais para dominação das massas. “Caridade” Valtinho sabia que não havia, nem era disso muito menos que necessitava, visto que 'a nação do futuro' de impostos já lhe cobrara muito mais do que devia, sem o 'troco' ao menos lhe devolver dessa 'parceria', entretanto avançar Valtinho necessitava na vida, e para sair da soleira da estagnação estudar, ele sabia, era do que mais carecia. Uma bolsa universitária ele solicitara, e se sorte tivesse ou a Justiça se fizesse, a Matemática, a Logística ou a Física Robótica para a Medicina Integrativa logo um novo gênio teria. Com o pensamento longe, um cutucão no seu cotovelo e ombro esquerdos lhe tiraram o olhar perdido ao largo a vaguear pela janela:
- O quê?!... - exclamou massageando o ombro dolorido e procurando explicação, ou pelo menos um pedido de desculpas do descuidado agressor.
Mas já ia para além do meio da condução o passageiro de chapéu, casaco e calças escuras, que sem lhe olhar na face o saudou:
“- Boas noites, professor...”
Professor ele seria, ou pelo menos é o que pretendia ser, de alguma coisa assim bem digna, real refúgio do saber, onde os anos de olhares dúbios e comentários jocosos aturados por uma vida inteira de quem viu sua infância e adolescência transcorrer de dentro de um barracão pudessem enfim ser esquecidos e respeito – daqueles dos bons – lhe deveriam todos os seus vizinhos; não mais por ser pai de santo, mas pelo canudo em Exatas que estaria sempre pronto a voar nas ventas daquele que ousasse mais uma vez chamá-lo de 'neguinho sem educação'. Mas como aquele senhor de voz grossa e roupas impropícias para o calor da Bahia disso sabia, ele idéia não fazia. Considerou então o óbvio:
“Deve ter me confundido com um outro alguém.”
Ônibus encheu, quase uma hora passou, mas ainda faltavam vários minutos até que Valtinho o seu ponto de chegada avistaria quando, como de costume, a muvuca se formou nos dois pontos de principal afluxo/defluxo de passageiros, o ponto do mercadinho do Chico e da farmácia ao lado da Sapataria Central. Valtinho estava sentado no banco imediatamente à frente da saída intermediária da lotação, e podia por isso até sentir na nuca o vento causado pela movimentação da descida da afligida população. Instintivamente inclinou-se para frente, a fim de que alguma dona de casa abarrotada de sacolas não lhe batesse com a bolsa na cabeça durante a eufórica evasão do único meio de transporte oferecido à sofrida povoação. Foi quando sentiu uma mão pesada a lhe segurar a nuca, e novamente a voz arguta a lhe estremecer o coração:
“- À noite venho ter contigo, para uns nossos assuntos resolver.”
Valtinho levantou-se de pronto para avistar aquele estranho senhor, mas entre lenços de cabeça e bolsas, muitos braços e quadris das avós protegendo crianças, só avistou a saída de um braço pela porta afora, a manga negra e uma abotoadura dourada, antiga, do tempo que há muito já não se usava mais. Pensou:
“Coitado! Vai me esperar sentado, tomando por outro o atraso do que combinou sozinho! Ai, só por Deus! É cada uma que acontece...”
Mas por mais que a lógica assim lhe ditasse, incomodado estava e continuou. Ao chegar em casa, no banho se perguntou:
“E se o tal cara que ele espera lhe deve dinheiro, e ele ache que sou eu, e resolva me apagar? Só me faltava agora que quero mudar de vida me aparecer esse senhor me tomando por outras negas e me cobrando de algo que eu nem fiz! Valtinho morto pelo pecado alheio? Credo em cruz! Valha-me, Nossa Senhora!”
Nem sabão nem o sal, do banho ou da janta com tia Nezita, fizeram Valtinho esquecer a sensação de mal estar. Valtinho desceu as escadas da varanda após concluir que devia 'cheio de egun*' aquele homem estar - “só podia” - para justificar o desassossego que sentia.
- Quer saber? Eu vou pro bar, com meu povo papear. Alguém há de lá estar para minha mente refrescar antes de eu ir para casa dormir!
E pro bar dos amigos foi, mas frequência muita lá não tinha, só uns três gatos pingados mais a garçonete Marita mais o dono, seu Jarbas. Amigo mesmo nenhum, só mesmo a no batente Marita.
- E aí, meu nego lindo, que manda? - disse a mulata aos quarenta sorrindo.
- Ai, amiga, nem te conto! Vim exorcizar umas energias ruins por aqui!
- Oxi, mas se o pai de santo não dá conta do capeta, que vai ser de nós pobre mortais? Hein, seu Jarbas?
- Pois é... - começou o dono, falando o que sempre falava fazendo o que sempre fazia quando algum cliente tentava lhe puxar para qualquer conversa: lavava e secava mais um copo.
- Olhe só, minha nega, pra começo de conversa, quem exorciza o demo é padre, e não pai de santo. Pai de Santo oferece marafo pros 'rabo de encruza'* deixar ele em paz! Mas nem é por isso que eu vim aqui, porque se você quer saber, eu tô quase terceirizando o terreiro, deixando tudo nas mãos da mãe-pequena, que agora eu vou é cuidar da minha vida prática. Eu vou ser professor! Tá bom pra você? Agora me dá aí uma...
Marita ria largada do jeito de Valtinho. Só por hábito chamou seu Jarbas, que deu seu “pois é” e lavou mais dois copos, mas não percebeu a cara de quem viu assombração do pai de santo, que olhou pra baixo, para fora, pro lado e para Marita novamente, na terceira vez em que ela insistiu em lhe perguntar qual a preferência da bebida para a noite.
- Me dê aí – disse ele lento – qualquer coisa doce e forte.
- Doce e forte é catuaba! Vai aguentar depois o tranco?
- Deixe de dengo e traga logo essa bebida – respondeu Valtinho se encostando no banco ao balcão.
Só de olho ficou, branco e apavorado, observando a figura de negro à mesa perto do portão à esquerda dos engradados por consignação. Cabeça baixa, bebia o que parecia pinga, cruzava os dedos onde se via um anel – coisa cara, grande e fina, a pedra quadrada vermelha luzia – entre os pelos da mão que subiam até encontrar no punho o fecho com a abotoadura, o paletó, os sapatos, a cartola à mesa e a barba baixa. Olhar não lhe dirigiu; solene, somente à garrafa atenção estendia.
Marita acabou por perceber que algo não ia bem com Valtinho. Chegou-lhe agora com outro tom, e lhe indagou:
- Que foi, meu lindo? Diga pra Marita o que está lhe desassossegando?
Ele a olhou e fez sinal para o local discretamente, para que ela visse o misterioso homem. Marita olhou e fez cara de indagação.
- Faz tempo que ele está aqui? - perguntou mais com os lábios do que emitindo sons.
- Não...
- Você sabe quem é?
- Não... Eu...
- Vi hoje no ônibus – sussurrou o mais baixo que pôde. Me cutucou, disse que vinha tratar de um assunto comigo. Acho que me confundiu com algum outro! Tô com medo que seja algum agiota...
- Acho que não.
- Mas você conhece?
- Não...
- Então, acha baseada em quê? Tá louca!? Eu morrendo assassinado no lugar de outro e você 'achando'
coisa sem pé nem cabeça, mulher!?
- Eu só estou dizendo que acho que agiota não é. Além disso quem não deve não teme...
- Ai, que frase ótima pra você ir falar para um futuro defunto! Eu amanhã morto quero ver você repetir essas idiotices no meu velório!
- Calma, homi, é muito drama pra pouca coisa!
- Como assim pouca coisa? Você já viu as roupas que essa criatura está usando? Quem usa uma roupa dessas nos dias de hoje, me diga? Não é época de carnaval, é o quê, então? Inocente...
- Ele já veio falar com você?
- Se desde que eu cheguei aqui só falei com você, como é que você vem me fazer uma pergunta dessas, mulher?
- Vamos esperar e ver se ele vem falar com você, então.
- Não sai daqui! Não me deixa sozinho, fica de olho nele! Avisa seu Jarbas!
Tudo isso sussurrou nervoso Valtinho e engoliu de um trago sua catuaba. Com o canto do olho observava o homem de preto, que gesto não fazia. No que Marita voltou de pôr umas garrafas no freezer, o pai de santo assustado a inquiriu:
- Já perguntou pro seu Jarbas?
- Ainda não.
- Mulher lerda!... Mas também já sei o que ele ia dizer...
- Pois é...
- Ai, até você, Marita!?
- Calma, homem, você tá muito nervoso.
- Vai lá, oferece outra bebida pra ele. Vê se ele fala alguma coisa.
Marita titubeou.
- Ah, agora tá com medo, né? Cadê a calma toda da realeza, hein?
- É que...
Valtinho olhou e arregalou os olhos.
- Foi embora! Ele foi embora! Cadê, cadê ele? Vai, Marita, corre pra porta, vê pra onde ele foi! Vê se tá com alguém, se tá de carro, se está acompanhado por algum comparsa! Vai senão não saio daqui hoje, durmo aqui dentro do bar, e nem deixo você ir embora também. Se eu for pro Além você vai comigo de companhia, só por não ter acreditado em mim!
-Mas eu acredito, meu lindo...
- Vai, vai sua lerda! Vai ver pra onde ele foi antes que ele suma!
Marita foi devagar, olhou para os dois lados da rua; voltou secando as mãos no avental.
- Nada. Lá fora não tem nada.
- Vai lá, pergunta pro seu Jarbas se ele sabe quem esse homem é.
- Melhor não...
- Como 'melhor não'? Alguém deve saber alguma coisa desse homem, de onde é...
- Seu Jarbas não conhece, não.
- Mas não custa perguntar! Vai lá, vai, Marita! Ai... eu tô nervoso!
-Melhor deixar pra amanhã. Faz assim: eu vou com você até sua casa, pra você ficar mais tranquilo. Seu Jarbas já está fechando aqui o bar e ele não gosta de enrolação nessa hora que é a mais perigosa pra ladrão.
- Sei, com ele cuidado pode, comigo não, né?
- Não estou lhe dizendo que vou lhe acompanhar até sua casa? Vamos, pague aí sua bebida que vou fechar o caixa e lhe levo são e salvo. Ô pai de santo mais medroso que já vi na vida!
- É melhor você ir parando com essa coisa de pai de santo e ir treinando pra ir desde já me chamando de 'professor', que é isso que eu vou ser, viu?
- Sim, senhor, 'Painho Professor”! - riu Marita.
Desceram a ladeira com Valtinho contando tudo de novo desde o ônibus como se lembrava dos ocorridos, e Marita só ouvindo sem interromper. Chegaram em casa de Valtinho, e ele já se preparava pra se despedir da amiga e adentrar o portão, quando rua abaixo, encostado a um poste, o mesmo homem ele viu.
-Marita – disse quase chorando, entre esganiços – é ele! E agora o que eu faço? Chamo a polícia?
-Melhor, não. Se eu fosse você ia lá falar com ele.
- Tá louca? Ele vai me matar!
- Vai não.
- Como você pode saber?
- Porque esse tipo não mata ninguém, não.
- E desde quando você conhece tipo que mata e que não mata?
- É muito simples, meu lindo: morto não mata vivo. Só vivo é que mata.
Valtinho olhou pra ela sem entender.
- Olhe, Valtinho, eu sei das suas dúvidas lá com o 'Blé'**, sei que você herdou o cargo da sua avó mas sempre duvidou se seria você mesmo a levar aquilo tudo adiante, e sei também principalmente da sua indignação com as bestagens que esse povo diz por aí... mas hoje, meu lindo, meu querido 'futuro professor', você tá vendo com seus próprios olhos aquilo que a sua avó já vivia. O que você está vendo não é desse mundo, mas do outro. Do reino de orixá.
- O que é que você tá dizendo, louca?
- Que lá no bar não tinha ninguém, homem nenhum sentado lá onde você falou. Nem lá no poste eu to vendo pessoa alguma. O que você tá vendo é só pra você ver. E não adianta você querer fugir, se ele veio desse outro lugar pra falar com você, você não tem escapatória. Melhor ir logo ter com ele e ver o que ele quer. Desce lá e vai falar com ele. Eu espero você aqui, tá bom?
A calma de Marita poderia ter irritado Valtinho, não fosse ele mesmo já estar se sentindo meio anestesiado pela visão do estranho homem. “Lesa” - ele pensava. “Essa Marita é lesa”... mas a passos largos ele se encaminhava meio que hipnotizado pela figura de negro envolta em luz vermelha junto ao poste. Ninguém mais na rua, além de Marita, viu, quando o exu sua capa no ar balançou e Valtinho em frente a ele se ajoelhou, mãos para trás em garra e uma risada profunda no ar ecoou.
Valtinho, sem escapatória, seu 7 Encruzas incorporou.
* 'eguns' e 'rabos de encruza' são alguns dos nomes e expressões comuns entre praticantes dos cultos afro-brasileiros para designar espíritos já falecidos que vagam entre os vivos, prejudicando-os
** forma curta como alguns se referem ao Candomblé, embora convém deixar claro que, pelas palavras das personagens tanto neste como no próximo capítulo, eles não cultuam o candomblé original, mas uma forma mista entre Candomblé e Umbanda, que não se discute aqui os méritos, mas sim apenas se constata sua existência.
To be continued...
Esse conto será publicado em três partes, quinzenalmente.
Está ansioso pela continuação e não deseja esperar? É simples...
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segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O Pai de Santo - parte I

O Pai de Santo


Pai Arruda
conto psicografado em 15/04/12 por Jennifer Dhursaille


O pai de santo era cético – ainda que dotado de um pouco de respeito. Fora feito pela avó, essa grande catimbozeira, consagrada, segundo ela mesma dizia, nas terras lá da Alhandra. Mesmo as sacerdotisas do Candomblé a tinham em alta conta, e para a que julgou a melhor dentre elas todas – “a mais porreta!” – enviou a filha, Carminha, a fim de ser devidamente, segundo os ritos dos antigos africanos, instituída – “Povo que é bom de mironga tem a pele mais pro café do que pro leite!” – e de antemão já dizia que com um preto retinto a casava, posto que era pra fortalecer o sangue!
Mãe Saninha, a catimbozeira que mudou-se da Paraíba para a parte sul da Bahia, era mulher de muito se temer, pois que acertava errando e perto dela se engasgavam muitos, até mesmo sem comer. Depois da filha mais branquinha, que era sua mãe Carminha, vieram mais sete filhos, pretos ou morenos, filhos de cafuzo ou descendente de escravo, conforme o humor da avó na época em que lhe convinha escolher os maridos. Com cinco anos, o neto no colo da avó ouviu:
“Vai ser de Xangô esse neguinho e é ele que vai tocar os tambor tudo daqui quando eu me for”.
Lhe batizaram com 7, na fé de Oxalá, Jesus Nosso Senhor, e na medida em que cresceu foi assim, de uma em uma potência, apresentado aos Orixás, yorubá e nagô, e aos 18 já tocava, como pai pequeno. Quando do falecimento de um dos avôs, mãe Saninha entristecida, de luto, uma dó só, arretirou-se do terreiro e da vida de autoridade religiosa – maior mesmo que sua filha, que era de fato consagrada. E foi assumindo assim, meio que empurrado, um passo para trás, dois para frente, Pai Eustáquio de Xangô Airá, pela hereditariedade autoridade indiscutível, pela formação também, mas cheio de dúvidas que escondia por trás dos olhos quase verdes que herdara d’algum português.
Não duvidava da vóinha – “Nem era doido, imagina! Quem?” Mulher mais temida não sabia, mas como ela esse poder tinha, isso ele não sabia, nem de filho algum explicação plausível ouvia. Os católicos da baixa do sapateiro diziam ter sido pacto com o demo, e na verdade, nem disso ele duvidava, pois vóinha era de meter medo e arriava todo tipo de coisas nas encruzilhadas, de que nem toda se saberia endereço ou autoria.
“Deus me livre duvidasse de Yemanjá de mãinha, tão linda e serena, quando vinha abençoando os seus filhos com os braços abertos na cadência do mar de Recife”. Nem era porque não tombava sempre, pois todo ele lhe ensinaram que bom pai de Santo nem mesmo precisava receber, mas sim de entender, e por isso fora letrado, nos búzios, colares, peneiras, voduns, inquices e orixás. Entender ele entendia, bem mais até que alguns doutor que vira e mexe vinha fazer ‘estudo’, pedia licença pra freqüentar o ilê, gravar os cânticos, tirar fotos para defender alguma coisa, ‘fazer justiça e proteger sua gente e sua cultura’, diziam, então ele permitia, afinal não era filho de Xangô à toa. Mas no domingo à tarde, com a família rodeada em frente à televisão, o povo já com a preguiça da segunda, que vinha à galope levar todo mundo a correr ganhar o pão, nessa hora de quase silêncio, na ressaca de uma engira até de madrugada, Eustáquio se encostava no muro da varanda, olhava o mar ao longe e pensava em todas as dúvidas sobre as quais nunca falava.
- E se fosse tudo aquilo uma imaginação das gentes? Uma que ainda boa, que dá força, alento, faz sonhar e seguir adiante, mas mesmo assim, não mais real do que faz uma criança ao acreditar no Papai Noel?
- Se tudo no fundo não bastasse de uma questão de fé, do mesmo jeito que uma missa ou um muçulmano faria dentro da mesquita?
-Se a sacralidade não estivesse, assim como a beleza, além dos olhos de quem vê?
- E se a mediunidade fosse um dom em extinção, e sendo ele um que não a tinha, e poucos, segundo sua visão, talvez a tivessem dentro do seu salão, e somente a esses coubesse o intermédio do mágico e do divino?
- Seria ele, mesmo que a contragosto, um charlatão?
- E se a única pessoa bruxa mesmo que todos ali conheceram fosse mesmo Vó Saninha, que mesmo agora morta ainda controlasse a todos eles, como dentro de um feitiço, um bem bem-feito daqueles que diziam que ela fizera em sua juventude, virando um sino de cabeça pra dentro e emborcando um padre inteiro dentro, que lhe proibira entrar dentro da igreja com seu cortejo?
- E se fosse verdade o que lhe diziam, que gostava de homem porque lhe haviam passado Xangô na frente de Logunedé, que era de fato seu orixá de cabeça?
- E se todos os deuses, de todas as mitologias do mundo fosse só os outros nomes dos orixás? E se os orixás fossem só os deuses de todas as outras mitologias do mundo batizados com um nome africano?
- E se tivesse ele nascido em São Paulo em uma família judia, teria mesmo que cumprir essa ‘missão’ segundo lhe diziam, de manter aberta as portas aos necessitados de axé que um dia a avó abrira?
Eustáquio sofria as penas de ser um indagador, e como todo aquele que questiona por compulsão, amiúde não encontrava respostas para suas indagações e em breve começava a padecer de um grave tormento chamado “A Perdição no Labirinto dos Questionamentos”.
Mas ele não era o único sacerdote desassossegado em sua fé...
To be continued...
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segunda-feira, 14 de julho de 2014

De Amar e do Mar - parte III final

De Amar e do Mar


Psicografado por Jennifer Dhursaille
entre 02/10/2012 – 23/02/2014




3ª Parte

O catamarã mal atracou na Ilha de Itaparica e Clarice já desceu correndo, com pressa de chegar logo ao seu destino. De posse do endereço escrito às pressas no papel suado em suas mãos, não tardou a encontrar o endereço, na baixada dos sobrados azuis, onde num, seu ex-amante, em companhia de nova colombina estava a se refestelar. Pegou-o aos beijos com a moça que morava no local; Toninho ainda segurava as sacolas das compras que com a nova amada fora buscar.

- Muito bonito, hein, senhor Antonio Carlos, entendente da Marinha do Brasil! Se o país dependesse de suas promessas para honrar e defender a pátria da mesma forma como o senhor jurou lutar e defender a honra da sua família, como o vi fazer no dia do seu casamento diante no padre no altar, a nação está bem arranjada, mesmo, hein?

A moça assustou-se ainda mais que o endereçado à interlocução; com olhos arregalados inquiriu o pseudo-marido sobre a identidade da moça.

- Não é ninguém... - começou Antonio Carlos a balbuciar.
- Eu, minha querida, fui você ontem e hoje sou você amanhã! Agora dá uma entradinha logo aí com as suas comprinhas, que é o máximo que você vai lucrar desse traste aí, que eu preciso de cinco minutinhos para ter uma conversinha com esse daí, que vai já-já trazê-lo à razão.

Toninho despachou a moça para dentro do sobrado, e afastou-se com Clarice, arrastando-a pelo braço até dobrarem a esquina da baixada.

- Você tá louca? Isso é jeito de você vir atrás de mim? Se queria um 'revival' entra na fila, ou pelo menos se comporte, se é que está querendo furar a vez – disse quase sorrindo ao se lembrar dos momentos quentes que com a morena vivera, antecipando mentalmente o que achava que viria, ou que teria, com a visita antecipada de Clarice naquele local.

Mas o tapa na cara que se seguiu o tirou completamente daquele devaneio.

- Toma vergonha na tua cara, traste! A tua mulher e os teus filhos estão no Rio a te esperar e você aqui a se vagabundear como se não fosse um homem casado, com esposa e um lar pra cuidar, fazendo agrados a outras!
- Quem é você pra me cobrar moralidade, Clarice? Quando era você na minha cama estava tudo certo, não é? Mas porque agora que conheci outras há de ser diferente? Por acaso porque tu julgas que foste a primeira esperas que te peças permissão para saber com quem posso ou não me envolver?
- Em primeiro lugar, se tu queres saber quem sou eu, eu te digo: eu sou aquela que escolheu ficar livre para nunca depender de um cafageste mentiroso igual a tu que oferece flores pela frente e um par de chifres pelas costas. Eu sou aquela que desde pequena observou a marujada enganando as tias, a mãe e a avó em casa e jurou: comigo, não, violão! Comigo quem dá as cartas sou eu! E pago o preço por isso: to na boca do povo, mas me garanto, porque entre todas as que falam de mim a maioria me inveja, e a minoria que tem pena, se soubesse do que eu sei, teriam ainda mais pena é do passado delas, do tempo que perderam se guardando fiel pra homem igual a tu, igual o Valtinho, o Luiz Carlos e essa cambada toda que tem a pachorra de jurar na frente do padre e do juiz que vai estar ao lado da mulher na saúde, na doença, na tristeza e na pobreza, mas na verdade, no primeiro sinal de tédio no casamento, vão procurar diversão debaixo da saia de outra!
- Que bicho te mordeu, hein? Tá planejando virar santa ou vai entrar pro convento, hein, ô madalena arrependida? O que é que você quer comigo? Ou vai me dizer que veio até Itaparica só pra me dar lição de moral?
- Eu vim só te dar um aviso, pra depois tu não dizer que eu sou ruim ou que ninguém te avisou: o teu castelo vai cair. Tu vai perder tudo, mulher, filhos, status, casamento e até tua posição na Marinha. Escuta bem o que eu to te dizendo: “O que o Mar dá, o Mar tira, de quem não sabe dar valor...”
- Você tá é ficando louca! Some daqui da minha frente e me deixa em paz! Se você vier me incomodar aqui de novo, vou dar queixa de você pro seu tio e ele há de falar com teu patrão e te transferir pra bem longe, pra um lugar onde tu não me aborreças mais, e tenho certeza que ele vai acatar minha idéia pois vai adorar não ter de se envergonhar mais das palhaçadas que você faz!
- O mar tira, o mar dá! Janaína vai te levar a Bianca embora; os teus filhos vão ficar órfãos... Tu trata de ir pedir perdão pra ela e se emendar.
Antonio Carlos deixou-a falando sozinha e subiu a ladeira para adentrar de novo ao sobrado da concubina.
Clarice estava excitada, num estado quase febril. Nervosa voltou ao catamarã e olhou para o mar, certa de que a tragédia sobre o lar do amigo se abateria. Durante a viagem de volta sentia-se perturbada, e ao desembarcar no Rio de Janeiro, foi direto enfiar a cabeça dentro do mar, em busca de silenciar as vozes sussurradas que sentia ouvir. Com roupa molhada e tudo foi à procura de tia Juremir; abriu o portãozinho da vila e ingressou corredor a dentro, até chegar à tia, que se virou no tanque ao vê-la, espantada. Antes que pudesse perguntar “O que foi isso, minha filha”, a sobrinha desabava em prantos sobre a tia já molhada. Quando conseguiu falar, só conseguia repetir:

- Eu não sei, tia, o que está acontecendo comigo! Eu não sei... são vozes... É o mar... o mar vai levar de volta!
- Eu sei, minha filha, eu já entendi – disse passando as mãos suavemente pelos cabelos da sobrinha a experiente ialorixá. Você foi usada para dar um recado das Águas para alguém. Eu já lhe falei que a sua mãe Iansã está lhe pedindo a cabeça, já não falei? Você precisa levar nossas obrigações de culto mais à sério, Clarice, senão esse tipo de coisa vai começar a acontecer e você vai passar por maus momentos, minha filha. Vai acabar ficando desequilibrada...
Clarice chorou mais um pouco, até no colo da tia se acalmar. Mas longe dali, enquanto um choro na Vila Isabel cessava, outro tinha início dentro de um quarto na Barra da Tijuca.


Histórias do mar que leva, histórias que o mar quer te contar, de lindos contos que a areia, de amores quisera poder realizar. Mas em meio à terra dos homens, sonhos fenecem, paixões são dores.
Promessas que ao mar não cumprem, do mar para sempre te hás de lembrar. Pois que está é sua natureza, o que a ele dás, ele te devolverá; e isso inclui promessas vazias, preceitos sinceros e falas impensadas, que se ao mar destes, te hão de reencontrar.
Respeita as ondas, meus filhos! São elas que fazem o balanço do Bem e do Mal, e de muita ação impensada à beira d'àgua, destinos confusos e finais tortos poderão lá na frente vir a te importunar.
O que é no astral, nem sempre tem força pra ser aqui; e assim sofrem viúvas, órfãos e turbas que vagam sem um fim cumprir. Refazer um destino é missão que nem rei nem alfaiate se arvoram, não! Depois da meada solta, costurar não é pra qualquer agulha! Tem que ter 'dedal de ouro' e muita proteção do Bonfim pra remendar os panos, pedaços de vidas tristes que se perdem por aqui.
Por isso as sereias choram. Pelo que vêem e quem viu. Principalmente pelos amores todos, de pais, filhos, amantes, parentes, irmãos, vizinho ou vizir. Pois se Amar é a Lei e a Meta, desamar, é certo, náufrago ao mar...
Bianca cansou de não cumprir destino, e para trás Antonio Carlos deixou, levando seus dois filhinhos consigo, na boca da barra, quando a barca virou.
O marido como sempre estava longe, mas foi avisado e chegou para o enterro no terceiro dia a advir. Não abalado nem tonto, mas sem mais alma a lhe animar. Todo calor do corpo partira com Bianca em seu olhar, ainda que tempo fizera que dela ou dos filhos o brilho nos olhos viera contemplar.
Há quem dissera: “Agora casa de novo, e rearrumado está. Ouvi dizer que com uma bugra já está de cacho lá no Pará.”
Mas melhor soubera Clarice, que de branco, com a cabeça coberta, das obrigações no santo a lhe resguardar, no cemitério não adentrara, observando o cortejo fúnebre que ladeava a beira-mar.
“Nem tudo é para todos” – pensava. “Nem a vida que eu me quis me pertencia, pois apesar de moça assanhada, mais forte foi o santo que me queria, e aqui estou de preceito, vida nova que nem sei ao certo como será, pois ainda estou no berço, mas sei que é caminho. Caminho único, meu rosário e terço. Não sei porque com Toninho havia de ser diferente, se tantos homens amantes por toda vida afora têm. E daqui nada se leva; só experiência, momentos, bondade, prazer... Eu de fato nem era contra; tudo apenas 'fatos da vida' para mim...”

Mas com Antonio Carlos e Bianca não poderia ser assim. Eles eram pra ser sonho perdurado no jardim; uma lembrança viva de que é possível ser feliz e amar de verdade aqui. Mas no que parte de um todo se perdeu e de Ogum seu propósito se escureceu, a outra parte ele 'inverteu', impediu de 'iemanjar' sua Bianca, impediu-a assim de sua maior luz brilhar. Como só pra isso viera, sem isso não tinha mais porque ficar. Suas tristes lágrimas se juntam a tantas outras no mar. De amadas jogadas fora, de amando não se realizar, de amores não se manter, do Amor não se bastar.

O mar que ecoa aos teus ouvidos te lembra disso também. Ama hoje, ama muito; a quem não te ame também. Mas sobretudo sabei dar valor ao teu sagrado par, se vieste para a Terra ser exemplo desse Amar, não te percas em vielas que de ti só a dor virão lograr.


ATENÇÂO: este conto foi publicado gratuitamente em três partes visando colaborar com o Projeto do Clube dos Vira-Latas. Se você leu e gostou, por favor, click no link abaixo, conheça o clube e faça uma doação:

quinta-feira, 10 de julho de 2014

De Amar e do Mar - parte II

De Amar e do Mar

Psicografado por Jennifer Dhursaille
entre 02/10/2012 – 23/02/2014

continuação da parte I



2ª Parte

Dezoito meses se passaram e Bianca voltava da feira, com sacolas de compras e Alfredinho, seu primogênito, pela mãozinha a puxar; na barriga, desconfiava, logo uma irmãzinha ele teria para brincar, quando avistou Tia Tonha, já aposentada, que vinha lhe saudar. Após os diálogos de praxe, Bianca iniciou as confidências e pedia com o olhar, já que com a boca a coragem não lhe vinha, que lhe revelasse algo que da conduta do marido soubesse.

- Minha filha, desde aquele dia do teu casamento que a Clarice plantou o desassossego no seu coração. Você tá casada de nova, com um filhinho pela mão, outro vindo no ventre, não tem que se preocupar com o palavrório de gente que não tem mais o que fazer. Eu já te disse, minha filha, essa Clarice... Eu não quero falar mal da vida dos outros, porque não é da minha conta mas, entenda, ela não é uma moça assim, caseira, feita pra casar, você tá me entendendo? Ela é assim, do mundo, vamos dizer, tem espírito de homem, é aventureira! E acaba falando mais do que deve.

- Mas, Tia Tonha, o problema é que tudo que ela fala, eu confirmo da boca do próprio Toninho. Ele repete letra a letra cada palavra do que ela me diz. É como se ela conhecesse o meu marido melhor do que eu! E ainda por cima, tudo o que ela falou está acontecendo: eu acabo cuidando de tudo lá em casa sozinha; Antonio Carlos só vem a cada quinze dias, e quando vem só quer deixar o dinheiro e não se incomodar com nada! E agora que eu engravidei de novo, ele já está falando de ir em expedição para bem longe e só voltar depois que o bebê nascer. Disse que é uma oportunidade de evoluir na carreira, mas eu to vendo que está acontecendo exatamente como aquela moça falou: a família tá aumentando, ele está cada vez se ausentando mais e, embora não nos falte nada materialmente, não foi pra isso que eu quis um dia me casar e ser uma mãe de família. Eu quero o meu marido comigo, o pai do meu filho do meu lado!


Nos finais de semana em que o marido vinha, a desconfiança acabava por gerar discussões, que levavam mais e mais ao afastamento do casal. Antonio Carlos se defendia como podia, mas pouco a pouco, de oito em oito dias, foi passando para de dezesseis em dezesseis, e agora já falava de retornos mensais e trimensais para quando viesse o bebê.

- Você acha que eu não gostaria de passar mais tempo com você e com os nossos filhos? Acha que eu não fico infeliz por não ver as primeiras passadas, não ouvir as primeiras palavras do meu filho? Acha que é fácil a vida no mar? Para que eu possa prover a nossa família com tudo o que vocês precisam, eu tenho de me sacrificar, e se agora eu perder essa chance, amanhã poderá não haver outra ou poderá demorar muito até meu nome ser listado novamente para participar, porque essas coisas levam muito em conta a boa vontade, e com a experiência adquirida, eu posso subir de patente, e com o aumento poder ficar até mais tempo em casa. Não é muito melhor que eu esteja ausente enquanto nossa filha for um bebê que mal e mal notará minha presença do que estar ausente mais tarde quando aí sim, precisar do pai por perto?

Bianca não tinha coragem de verbalizar sua maior dúvida, então apenas insinuava:

- Mas todo esse tempo distante, longe de mim, você não sente a minha falta?
- É claro que sim, Bianca, mas você precisa entender: “As coisas são como as coisas são!”

Essa era a frase que virou um drama para a pobre iara, que nela via a confirmação de todos os seus temores. Seu ogum abria caminho em meio a outras águas, que não as do sagrado matrimônio.

Bianca com o carrinho de bebê duplo na calçada da beira da praia passeava, olhava para a areia e para o mar que um dia foram as testemunhas do seu apaixonado romance com Antonio Carlos; uma tão linda história de amor que agora não parecia mais terminar com o “felizes para sempre”.
Sentou-se no banco e triste, como há muito tempo sempre estava, suspirou. Olhou o céu, e à sua direita, em pé comprando no carrinho de sorvete em frente ao hotel Copacabana, avistou aquela que lhe 'abrira os olhos' no dia da festa do seu casamento. Acenou e fez sinal para que ela se aproximasse. Percebeu que a moça um pouco titubeou, mas no fim veio e ofereceu-se para comprar-lhes também sorvetes.

- Não, não, obrigada! Na verdade eu queria conversar, se você tivesse um tempo.

Um tanto ressabiada Clarice sentou-se ao seu lado. Puxou um assunto que considerou neutro:

- Pois é, como estão grandes as crianças, não?
- Sim, estão... Pena que o pai nunca está perto para poder observar direito. Olha, eu queria conversar com você já há algum tempo. Você... você parece a única pessoa que me falou a verdade. Eu... eu acho que você conhece o meu marido melhor do que eu mesma porque você me disse coisas que ouvi, pouco depois de você ter me dito, saindo da própria boca dele. Eu tentei falar com a Tia Tonha, que se aposentou, mas você sabe, ela não quis se envolver. Eu entendo... nem quero que você pense que eu quero comprometê-la também! Eu só queria saber, com certeza, sabe, por mais que doa... Porque eu acho que até agora só você me falou a verdade! O meu casamento não é nada daquilo que eu esperava; estou sempre sozinha. Não me falta nada de material, é verdade, mas... não foi para ter essa vida que eu me casei. Você conhece o Antonio Carlos, e todo mundo que está lá com ele na expedição. Diga-me, você acha que todos eles traem as esposas quando estão longe de casa?

Clarice observou que as mãos de sua interlocutora tremiam, e viu o pavor de descobrir o que não queria nos alvos olhos dela. Olhou o bocejo preguiçoso da menina dentro do carrinho e o olhar esperto do garoto voltado para o mar – com certeza um que também dali seu ganha-pão um dia tiraria – e o inusitado aconteceu. Clarice sentiu pena dos três ali à sua frente e ficou indignada com Antonio Carlos. Prometeu a si mesma que o pegaria na chincha e o achincalharia: “Como ousava ele trair mulher assim tão boa e tão bela? E ainda por cima olvidar filhos tão lindos, uns pobres inocentes! Toninho ia se ver com ela, ai se ia!” E para a jovem esposa, então, ela falou:

- Veja bem, minha querida, aquilo que eu te falei é assim uma realidade que acontece, digamos, na maioria das vezes, mas toda regra tem uma exceção; e você que é casada com o seu marido deveria saber que ele sempre falava de você para os colegas, se exibia mesmo, dizendo que ia casar com a mulher mais bonita da Barra da Tijuca! Todo mundo sabe que ele era louco por ti! É sim! Então, eu acho que, se tem um homem que pode ser fiel, apesar de eu não botar a mão no fogo por homem nenhum, é o Antonio Carlos, Bianca! Olha, tenha fé na história de vocês, que levou até aquele casamento tão lindo e que já te deu dois filhos e deixa o resto pra lá. Pensa assim, ó: que você tá fazendo a sua parte de mulher e de mãe direito, se ele não fizer o azar é dele, quer dizer que ele é que não presta! Mas isso eu to dizendo assim pro caso de um dia você descobrir alguma coisa, não to falando de agora, tá? Porque agora vocês são casados há pouco tempo, e eu acho que a paixão ainda é recente e que ele deve ser fiel, sim! Não se perturbe mais com essas idéias, não, viu, que você é muito nova e bonita e ainda tem essas belezuras aí para se ocupar – disse sorrindo e apontando para os pequenos.
Bianca sorriu, ainda que se sentisse apenas meio tom mais leve. Não sabia explicar porque, mas confiava nas palavras da moça Clarice. Se ela achava que Toninho podia lhe ser fiel, talvez isso fosse mesmo verdade.
To be continued...
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