segunda-feira, 30 de junho de 2014

De Amar e do Mar

De Amar e do Mar

Parte 1


conto psicografado entre
02/10/2012 – 23/02/2014

Antonio Carlos e Bianca brincavam nas areias da praia de Copacabana, nos reinos de Mamãe Yemanjá, nos idos dos anos 30. Já se conheciam desde antes de nascer, do mesmo ponto, um pouquinho mais pra dentro e mais para o fundo do mar, quando juraram que para sempre permaneceriam juntos antes de encarnar.
Toninho, antes um ogunzinho marinho, agora em terra escolhera naturalmente os caminhos da Marinha; a farda azul o seduzira e pela pátria, defendê-la nas águas, uma bela proposta de vida ele vira. Sua iara, agora humana e mortal, com cabelos anelados e adoirados na beira do cais o esperava, fosse dia, com as fronhas cheirosas e os lençóis passados; se a lua luzia, para cada reencontro mágico, o olhar, o reconhecimento antigo, dos amores que nascem no sem tempo e vêm, atravessando dimensões, devassando imensidões de espaço-tempo, a fim de se auto-provar.
Uma iara e um ogum, hoje em terra e não mais sós, entre tantos emissários de outras forças siderais, Antonio Carlos e sua iara, nossa Bianca, procuravam, como tantos outros casais, conseguir que seu amor vingasse e jamais viesse a sucumbir.

Uma noite numa festa, em alto-mar comemorava-se o aniversário do capitão; gala era ordem para todos, mas assim que pôde e o protocolo permitiu, se viu Antonio Carlos a olhar as ondas que se sucediam perante aquela noite que circundava o navio. Em seu pensamento, como de praxe, Bianca, em seu filme mental o seduzia, em flashes de sorrisos, danças, volteios de cabelo e andar a insinuar carícias misteriosas com que ele viria a sonhar.
Do seu devaneio Clarice o retirou, postada atrás de si, quando em seu ouvido sussurrou:

- Sozinho, meu amigo, a este tarde enluarar?
- Nunca está sozinho quem tem o coração a amar.
- Quem lhe ouve nem imagina que a tristeza seja capaz de te perturbar.
- Tristeza todos têm, ora ou outra, que a labuta da vida não é fácil, mas penso naquilo que tem de bom e sigo adiante, sem perder tempo com chorumelas – disse olhando diretamente, pela segunda vez naquela noite, a morena deslumbrante, filha do antigo almirante, sobrinha do capitão e candidata a cargo na tripulação de um navio mercante.
- Isso é que é homem decidido; assim que eu gosto! - sorriu-lhe Clarice e piscou, lembrando da primeira vez que o olhara em uma outra noite.

Clarice não tinha a candura nem o doce molejo de sua amada que o aguardava em terra, mas tinha um fogo por trás dos escuros dos olhos que lhe incendiava as pupilas e um calor derretente que fazia moradia no carnudo dos seus lábios. Clarice tinha labaredas que o atiçavam em alto-mar, quando as lembranças de seu amor em terra, embora perenes, eram mais fáceis de sufocar, em meio à fumaça ardente com que Clarice vivia tentando lhe enfeitiçar.
Já lhe roubara beijos – e outros que pedira, insistira ou suplicara, acabara por extorquir de uma forma ou de outra do único marujo que não se encantara por si. Já conhecera Bianca, e no exato instante em que lhe avistara, a si mesma jurara: “Ei de ser eu uma sombra, entre teu amante e ti”.
Porque quisera isso, nem mesmo ela soubera, mas como num reflexo instintivo, não algo em que deliberadamente pensara, interpor-se entre esse ogum e essa iara era simplesmente algo pelo qual era levada, como uma atração magnética. Não que com ele ela desejasse se casar, ou da moça grande vingança executar, nem uma coisa nem outra. Não um grande amor nem um ódio avassalador. Apenas a irresistível delícia de ser preferida e não preterida, em alguns momentos, por alguém que de fato vivia um grande amor. Que delícia maior, ou melhor recompensa que se saber escolhida, ainda que por força da solidão, por quem já tinha TUDO, o maior TUDO que do Amor se poderia esperar? Essa era a vitória de Clarice sobre o mundo: não tinha a um homem por si devotado, mas a qualquer um que por outra sendo perdidamente apaixonado, era capaz de por ela se encantar e se deixar seduzir e levar aos beijos e delírios mais, num momento em que sua imagem concreta na realidade presente era mais forte do que uma doce lembrança ou memória ausente.
Nos anos 30 poucas mulheres tinham oportunidade de serem tão ousadas quanto Clarice, mas muitos homens haviam a encorajar a polivalência afetiva de um outro em alto-mar. E assim Antonio Carlos, meio que contrafeito de início, mas pouco a pouco completamente adaptado a situação afinal, a cada encontro fortuito com aquela que jocosamente chamavam 'a sucessora do almirantado'. De início sempre a refutara, enquanto o perfume de Bianca era ainda nítido em sua memória, mas terminava por envolvê-la em seus braços assim que o vapor de promessas de uma noite quente exalava dos lábios a morena, subtraindo do seu olfato qualquer lembrança do perfume de Bianca.
- Tá triste porque vai se casar, marinheiro? - perguntou brejeira.
- Não, eu quero me casar! Já era para ter me casado no ano passado, mas esperei juntar mais dinheiro para poder alugar uma casa melhor. Porque, você sabe, depois que a gente casa, vêm os filhos... É preciso estar preparado.
- Se bem que tu nem vais estar curtindo tudo isso, já que vives em alto-mar, não é mesmo? Vais ser, como todos os outros, marido e pai de final de semana, na melhor das hipóteses; esposo quinzenal na mais provável!
- É, bem... são os ossos do ofício...
- Vou te dizer uma coisa, Antonio Carlos: nem tu nem nenhum outro desses malandros me engana! Vocês estão nessa vida é por isso mesmo, é pra poder continuar com a vida de solteiro em alto-mar! Com a desculpa do trabalho vocês levam a vida que todo homem queria ter: esposa e filhos bonitinho em casa pra vocês poderem exibir nas festas e na missa de domingo, e vocês livres o resto da semana. Assim até eu! Vê se eu não ia querer também um marido pra me encher o saco e cuidar dos filhos em casa enquanto eu banco a donzela em alto-mar? Mas com toda certeza que aí até eu me casava!
- Tu não pensas em assentar chão com algum boa-pinta no Rio de Janeiro? Morena bonita como tu és não há de te faltar pretendentes.

A morena riu brejeira, com as mãos nos quadris, elevando discretamente um tanto mais o vestido e exibindo um pouco mais de perna.

- E perder a minha liberdade de andar por onde eu quero pra onde eu quero, para ter de dar satisfação pra homem? De jeito nenhum!

E então aproximou-se, quase colando o corpo ao de Antonio Carlos:

- Só se fosse com algum bem bonzinho assim como tu, que não ia me deixar trancada dentro de casa.
- Trancada eu não ia mesmo... mas quem te disse que eu sou bonzinho? - provocou ele sem que seu corpo fugisse da aproximação do dela.
- Não é, não? Vem me mostrar então o quanto de malícia tem aí dentro por trás dessa cara de bonzinho...
- Você pode se arrepender de provocar... - quase a beijando.
- Eu, querido? Eu não tenho nada a perder que já não tenha há muito tempo perdido! - riu-se ela.

E rindo em meio aos folguedos, retiraram-se rumo a um local mais reservado.


O dia do casamento chegou. A festa se fez marcante para aqueles que compareceram, e à noite, na praia, ainda com a noiva em seu vestido e o noivo com a gravata borboleta frouxa ao redor do colarinho do fraque, comemoravam intimamente a sós, acompanhados pela garrafa de champagne cara e pelas marolas que rebentavam na areia, traduzindo ruídos de seres mágicos, que além do véu, celebravam também aquela união. Os noivos eram só amor, traduzido no olhar e manifestado pelas mãos.

- Estou tão contente que esse dia enfim chegou! Com todos os nossos amigos, numa festa tão bonita... Jamais nos esqueceremos deste dia, nem mesmo quando formos bem velhinhos!
- O dia em que selamos a nossa união! - disse-lhe, segurando-lhe a face entre as mãos, a noiva, cujos olhos refletiam o brilho na escuridão.
- Agora todos saberão que homem tão sortudo eu sou, e que a mulher mais bonita de toda a Barra é minha mulher!
- É, mas... e agora, o que vai ser? Quero dizer, segunda você vai retornar para alto-mar e eu vou ficar aqui sozinha a te esperar...
- Só por pouco tempo, minha querida, até nosso primeiro rebento chegar; daí já não estará mais tão só. Até mesmo te enfadarás da minha companhia – riu-se Antonio Carlos.
- Isso nunca, imagine, meu amor! É que... eu não tinha pensado nisso antes, mas, tinha uma moça no nosso casamento, acho que convidada sua, porque estava junto do pessoal da fragata, uma tal de Luciana.. Não, não, Clarice, isso! É Clarice! Ela começou a me falar sobre a vida das esposas dos homens que ganham a vida no mar, que o mar dá o sustento para a família mas ao mesmo tempo cobra caro, pois o preço é a distância entre os casais. Eu fiquei pensando no que ela disse, que tem mesmo um fundo de verdade... que...
- E que o quê, Bianca? - inquiriu nervoso Toninho, pela menção do nome da moça que o conhecia muito melhor do que deveria. - Você acha que esse tipo de conversa é apropriada para o dia da festa do nosso casamento? Essa tal de Clarice aí devia é estar com inveja de você, de ver uma noiva tão linda subir ao altar. Vem aqui... - e puxou-a para os seus braços a fim de com beijos calar as suas inquietações.
- Eu só não quero que nunca nada afaste a gente, nunca... só isso... - respondeu entre os beijos que no agora marido correspondia.
- Querida, as coisas são como as coisas são, mas eu te prometo que nunca nada vai separar a gente.
Bianca gelou ante a menção dessa frase, pois não havia mencionado ao noivo o conteúdo do restante da conversa que com a estranha e bela convidada tivera. Fora uma longa conversa, dentro da sacristia, em que Clarice tratara de conquistar a atenção e a confiança da moça com frases que sabia cedo ou tarde ela ouviria. Como Clarice mesma as ouvira, da boca do futuro-recém-marido, frases que ela plantava, com cálculo e paciência na certeza de que no tempo certo ofertariam as colheitas de dúvida à mente de Bianca, como Clarice pretendia.

- Se eu fosse você, não arrumava muito filho, não... Curtia a vida de casada mas evitava aumentar muito a prole, porque esses homens de mar adoram deixar a mulher buchuda em casa; quanto mais elas de barriga ficam, mais eles se ausentam, em busca de companhias mais alegres, se é que você me entende... Isso te falo de cátedra, pois sou filha, neta, bisneta e sobrinha de homem do mar, e eu mesma trabalho muito junto com eles; eu sei como eles pensam. Já vi inúmeras histórias acontecerem dentro da minha família mesmo, com as minhas primas, e também vizinhas, amigas... por isso que te falo: homem do mar é bom, sim, eles são bons provedores, não deixam faltar nada nem pra mulher ou pros filhos, só que é assim como eu tô te dizendo; na medida que a família, e consequentemente as obrigações e os problemas, vão crescendo, mais eles vão se afastando e buscando alegria em outros portos! Então é bom você ter um número de filhos pequeno, porque é você que vai ter de se virar com tudo no dia-dia: levar em médico, problema de escola – tudo sozinha! O preço de amar homem do mar é a solidão.
- Ah, mas eu não posso crer que todo o marinheiro traia a esposa só porque está em alto-mar... Se ele a amar de verdade, saberá se resguardar até voltar para ela que também o estará esperando em casa.
- Ah, querida, é que você não conhece cabeça de marinheiro; pra eles isso nem é traição, é uma coisa assim, digamos, que tem que ser e pronto! Coisa da vida, entende? Não é que eles arrumem caso com outra mulher por aí porque queiram abandonar as esposas. De jeito nenhum! Eles prezam até muito o lar, até demais. Se você pressionar eles, vai ver que eles vão te dizer assim: “Meu bem, 'as coisas são como as coisas são', mas eu te amo e tra-la-la, tra-la-la...!” Já ouvi essa frase da boca de vários, por isso eu sei como é que funciona...
- Credo, Clarice, até parece que quer fazer a moça desistir do casamento! Vira essa boca pra lá, menina! - repreendeu Tia Tonha, a cozinheira da guarnição.
- Imagine! Eu quero mais é que ela se case e seja muito feliz! Para isso estou fazendo a minha parte, que é fazer dela uma noiva consciente da realidade da vida no mar. Pois quem não tem ilusão, não sofre decepção!

Bianca recordava das palavras que ouvira, antes de dizer seu “sim” no altar, e agora elas ressoavam em sua mente, sobrepondo-se aos sussurros de Antonio e aos gemidos da brisa do mar.


To be continued...
Esse conto será publicado em três partes, semanalmente.
Está ansioso pela continuação e não deseja esperar? É simples...
Para receber o conto integral “De Amar e do Mar” em formato de arquivo [.doc] diretamente na sua caixa postal, faça uma doação de qualquer valor para o Clube dos Vira-Latas e envie um e-mail comunicando a doação (não é necessário dizer o valor) para abruxadomar@gmail.com.