quinta-feira, 10 de julho de 2014

De Amar e do Mar - parte II

De Amar e do Mar

Psicografado por Jennifer Dhursaille
entre 02/10/2012 – 23/02/2014

continuação da parte I



2ª Parte

Dezoito meses se passaram e Bianca voltava da feira, com sacolas de compras e Alfredinho, seu primogênito, pela mãozinha a puxar; na barriga, desconfiava, logo uma irmãzinha ele teria para brincar, quando avistou Tia Tonha, já aposentada, que vinha lhe saudar. Após os diálogos de praxe, Bianca iniciou as confidências e pedia com o olhar, já que com a boca a coragem não lhe vinha, que lhe revelasse algo que da conduta do marido soubesse.

- Minha filha, desde aquele dia do teu casamento que a Clarice plantou o desassossego no seu coração. Você tá casada de nova, com um filhinho pela mão, outro vindo no ventre, não tem que se preocupar com o palavrório de gente que não tem mais o que fazer. Eu já te disse, minha filha, essa Clarice... Eu não quero falar mal da vida dos outros, porque não é da minha conta mas, entenda, ela não é uma moça assim, caseira, feita pra casar, você tá me entendendo? Ela é assim, do mundo, vamos dizer, tem espírito de homem, é aventureira! E acaba falando mais do que deve.

- Mas, Tia Tonha, o problema é que tudo que ela fala, eu confirmo da boca do próprio Toninho. Ele repete letra a letra cada palavra do que ela me diz. É como se ela conhecesse o meu marido melhor do que eu! E ainda por cima, tudo o que ela falou está acontecendo: eu acabo cuidando de tudo lá em casa sozinha; Antonio Carlos só vem a cada quinze dias, e quando vem só quer deixar o dinheiro e não se incomodar com nada! E agora que eu engravidei de novo, ele já está falando de ir em expedição para bem longe e só voltar depois que o bebê nascer. Disse que é uma oportunidade de evoluir na carreira, mas eu to vendo que está acontecendo exatamente como aquela moça falou: a família tá aumentando, ele está cada vez se ausentando mais e, embora não nos falte nada materialmente, não foi pra isso que eu quis um dia me casar e ser uma mãe de família. Eu quero o meu marido comigo, o pai do meu filho do meu lado!


Nos finais de semana em que o marido vinha, a desconfiança acabava por gerar discussões, que levavam mais e mais ao afastamento do casal. Antonio Carlos se defendia como podia, mas pouco a pouco, de oito em oito dias, foi passando para de dezesseis em dezesseis, e agora já falava de retornos mensais e trimensais para quando viesse o bebê.

- Você acha que eu não gostaria de passar mais tempo com você e com os nossos filhos? Acha que eu não fico infeliz por não ver as primeiras passadas, não ouvir as primeiras palavras do meu filho? Acha que é fácil a vida no mar? Para que eu possa prover a nossa família com tudo o que vocês precisam, eu tenho de me sacrificar, e se agora eu perder essa chance, amanhã poderá não haver outra ou poderá demorar muito até meu nome ser listado novamente para participar, porque essas coisas levam muito em conta a boa vontade, e com a experiência adquirida, eu posso subir de patente, e com o aumento poder ficar até mais tempo em casa. Não é muito melhor que eu esteja ausente enquanto nossa filha for um bebê que mal e mal notará minha presença do que estar ausente mais tarde quando aí sim, precisar do pai por perto?

Bianca não tinha coragem de verbalizar sua maior dúvida, então apenas insinuava:

- Mas todo esse tempo distante, longe de mim, você não sente a minha falta?
- É claro que sim, Bianca, mas você precisa entender: “As coisas são como as coisas são!”

Essa era a frase que virou um drama para a pobre iara, que nela via a confirmação de todos os seus temores. Seu ogum abria caminho em meio a outras águas, que não as do sagrado matrimônio.

Bianca com o carrinho de bebê duplo na calçada da beira da praia passeava, olhava para a areia e para o mar que um dia foram as testemunhas do seu apaixonado romance com Antonio Carlos; uma tão linda história de amor que agora não parecia mais terminar com o “felizes para sempre”.
Sentou-se no banco e triste, como há muito tempo sempre estava, suspirou. Olhou o céu, e à sua direita, em pé comprando no carrinho de sorvete em frente ao hotel Copacabana, avistou aquela que lhe 'abrira os olhos' no dia da festa do seu casamento. Acenou e fez sinal para que ela se aproximasse. Percebeu que a moça um pouco titubeou, mas no fim veio e ofereceu-se para comprar-lhes também sorvetes.

- Não, não, obrigada! Na verdade eu queria conversar, se você tivesse um tempo.

Um tanto ressabiada Clarice sentou-se ao seu lado. Puxou um assunto que considerou neutro:

- Pois é, como estão grandes as crianças, não?
- Sim, estão... Pena que o pai nunca está perto para poder observar direito. Olha, eu queria conversar com você já há algum tempo. Você... você parece a única pessoa que me falou a verdade. Eu... eu acho que você conhece o meu marido melhor do que eu mesma porque você me disse coisas que ouvi, pouco depois de você ter me dito, saindo da própria boca dele. Eu tentei falar com a Tia Tonha, que se aposentou, mas você sabe, ela não quis se envolver. Eu entendo... nem quero que você pense que eu quero comprometê-la também! Eu só queria saber, com certeza, sabe, por mais que doa... Porque eu acho que até agora só você me falou a verdade! O meu casamento não é nada daquilo que eu esperava; estou sempre sozinha. Não me falta nada de material, é verdade, mas... não foi para ter essa vida que eu me casei. Você conhece o Antonio Carlos, e todo mundo que está lá com ele na expedição. Diga-me, você acha que todos eles traem as esposas quando estão longe de casa?

Clarice observou que as mãos de sua interlocutora tremiam, e viu o pavor de descobrir o que não queria nos alvos olhos dela. Olhou o bocejo preguiçoso da menina dentro do carrinho e o olhar esperto do garoto voltado para o mar – com certeza um que também dali seu ganha-pão um dia tiraria – e o inusitado aconteceu. Clarice sentiu pena dos três ali à sua frente e ficou indignada com Antonio Carlos. Prometeu a si mesma que o pegaria na chincha e o achincalharia: “Como ousava ele trair mulher assim tão boa e tão bela? E ainda por cima olvidar filhos tão lindos, uns pobres inocentes! Toninho ia se ver com ela, ai se ia!” E para a jovem esposa, então, ela falou:

- Veja bem, minha querida, aquilo que eu te falei é assim uma realidade que acontece, digamos, na maioria das vezes, mas toda regra tem uma exceção; e você que é casada com o seu marido deveria saber que ele sempre falava de você para os colegas, se exibia mesmo, dizendo que ia casar com a mulher mais bonita da Barra da Tijuca! Todo mundo sabe que ele era louco por ti! É sim! Então, eu acho que, se tem um homem que pode ser fiel, apesar de eu não botar a mão no fogo por homem nenhum, é o Antonio Carlos, Bianca! Olha, tenha fé na história de vocês, que levou até aquele casamento tão lindo e que já te deu dois filhos e deixa o resto pra lá. Pensa assim, ó: que você tá fazendo a sua parte de mulher e de mãe direito, se ele não fizer o azar é dele, quer dizer que ele é que não presta! Mas isso eu to dizendo assim pro caso de um dia você descobrir alguma coisa, não to falando de agora, tá? Porque agora vocês são casados há pouco tempo, e eu acho que a paixão ainda é recente e que ele deve ser fiel, sim! Não se perturbe mais com essas idéias, não, viu, que você é muito nova e bonita e ainda tem essas belezuras aí para se ocupar – disse sorrindo e apontando para os pequenos.
Bianca sorriu, ainda que se sentisse apenas meio tom mais leve. Não sabia explicar porque, mas confiava nas palavras da moça Clarice. Se ela achava que Toninho podia lhe ser fiel, talvez isso fosse mesmo verdade.
To be continued...
Esse conto será publicado em três partes, semanalmente.
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