segunda-feira, 14 de julho de 2014

De Amar e do Mar - parte III final

De Amar e do Mar


Psicografado por Jennifer Dhursaille
entre 02/10/2012 – 23/02/2014




3ª Parte

O catamarã mal atracou na Ilha de Itaparica e Clarice já desceu correndo, com pressa de chegar logo ao seu destino. De posse do endereço escrito às pressas no papel suado em suas mãos, não tardou a encontrar o endereço, na baixada dos sobrados azuis, onde num, seu ex-amante, em companhia de nova colombina estava a se refestelar. Pegou-o aos beijos com a moça que morava no local; Toninho ainda segurava as sacolas das compras que com a nova amada fora buscar.

- Muito bonito, hein, senhor Antonio Carlos, entendente da Marinha do Brasil! Se o país dependesse de suas promessas para honrar e defender a pátria da mesma forma como o senhor jurou lutar e defender a honra da sua família, como o vi fazer no dia do seu casamento diante no padre no altar, a nação está bem arranjada, mesmo, hein?

A moça assustou-se ainda mais que o endereçado à interlocução; com olhos arregalados inquiriu o pseudo-marido sobre a identidade da moça.

- Não é ninguém... - começou Antonio Carlos a balbuciar.
- Eu, minha querida, fui você ontem e hoje sou você amanhã! Agora dá uma entradinha logo aí com as suas comprinhas, que é o máximo que você vai lucrar desse traste aí, que eu preciso de cinco minutinhos para ter uma conversinha com esse daí, que vai já-já trazê-lo à razão.

Toninho despachou a moça para dentro do sobrado, e afastou-se com Clarice, arrastando-a pelo braço até dobrarem a esquina da baixada.

- Você tá louca? Isso é jeito de você vir atrás de mim? Se queria um 'revival' entra na fila, ou pelo menos se comporte, se é que está querendo furar a vez – disse quase sorrindo ao se lembrar dos momentos quentes que com a morena vivera, antecipando mentalmente o que achava que viria, ou que teria, com a visita antecipada de Clarice naquele local.

Mas o tapa na cara que se seguiu o tirou completamente daquele devaneio.

- Toma vergonha na tua cara, traste! A tua mulher e os teus filhos estão no Rio a te esperar e você aqui a se vagabundear como se não fosse um homem casado, com esposa e um lar pra cuidar, fazendo agrados a outras!
- Quem é você pra me cobrar moralidade, Clarice? Quando era você na minha cama estava tudo certo, não é? Mas porque agora que conheci outras há de ser diferente? Por acaso porque tu julgas que foste a primeira esperas que te peças permissão para saber com quem posso ou não me envolver?
- Em primeiro lugar, se tu queres saber quem sou eu, eu te digo: eu sou aquela que escolheu ficar livre para nunca depender de um cafageste mentiroso igual a tu que oferece flores pela frente e um par de chifres pelas costas. Eu sou aquela que desde pequena observou a marujada enganando as tias, a mãe e a avó em casa e jurou: comigo, não, violão! Comigo quem dá as cartas sou eu! E pago o preço por isso: to na boca do povo, mas me garanto, porque entre todas as que falam de mim a maioria me inveja, e a minoria que tem pena, se soubesse do que eu sei, teriam ainda mais pena é do passado delas, do tempo que perderam se guardando fiel pra homem igual a tu, igual o Valtinho, o Luiz Carlos e essa cambada toda que tem a pachorra de jurar na frente do padre e do juiz que vai estar ao lado da mulher na saúde, na doença, na tristeza e na pobreza, mas na verdade, no primeiro sinal de tédio no casamento, vão procurar diversão debaixo da saia de outra!
- Que bicho te mordeu, hein? Tá planejando virar santa ou vai entrar pro convento, hein, ô madalena arrependida? O que é que você quer comigo? Ou vai me dizer que veio até Itaparica só pra me dar lição de moral?
- Eu vim só te dar um aviso, pra depois tu não dizer que eu sou ruim ou que ninguém te avisou: o teu castelo vai cair. Tu vai perder tudo, mulher, filhos, status, casamento e até tua posição na Marinha. Escuta bem o que eu to te dizendo: “O que o Mar dá, o Mar tira, de quem não sabe dar valor...”
- Você tá é ficando louca! Some daqui da minha frente e me deixa em paz! Se você vier me incomodar aqui de novo, vou dar queixa de você pro seu tio e ele há de falar com teu patrão e te transferir pra bem longe, pra um lugar onde tu não me aborreças mais, e tenho certeza que ele vai acatar minha idéia pois vai adorar não ter de se envergonhar mais das palhaçadas que você faz!
- O mar tira, o mar dá! Janaína vai te levar a Bianca embora; os teus filhos vão ficar órfãos... Tu trata de ir pedir perdão pra ela e se emendar.
Antonio Carlos deixou-a falando sozinha e subiu a ladeira para adentrar de novo ao sobrado da concubina.
Clarice estava excitada, num estado quase febril. Nervosa voltou ao catamarã e olhou para o mar, certa de que a tragédia sobre o lar do amigo se abateria. Durante a viagem de volta sentia-se perturbada, e ao desembarcar no Rio de Janeiro, foi direto enfiar a cabeça dentro do mar, em busca de silenciar as vozes sussurradas que sentia ouvir. Com roupa molhada e tudo foi à procura de tia Juremir; abriu o portãozinho da vila e ingressou corredor a dentro, até chegar à tia, que se virou no tanque ao vê-la, espantada. Antes que pudesse perguntar “O que foi isso, minha filha”, a sobrinha desabava em prantos sobre a tia já molhada. Quando conseguiu falar, só conseguia repetir:

- Eu não sei, tia, o que está acontecendo comigo! Eu não sei... são vozes... É o mar... o mar vai levar de volta!
- Eu sei, minha filha, eu já entendi – disse passando as mãos suavemente pelos cabelos da sobrinha a experiente ialorixá. Você foi usada para dar um recado das Águas para alguém. Eu já lhe falei que a sua mãe Iansã está lhe pedindo a cabeça, já não falei? Você precisa levar nossas obrigações de culto mais à sério, Clarice, senão esse tipo de coisa vai começar a acontecer e você vai passar por maus momentos, minha filha. Vai acabar ficando desequilibrada...
Clarice chorou mais um pouco, até no colo da tia se acalmar. Mas longe dali, enquanto um choro na Vila Isabel cessava, outro tinha início dentro de um quarto na Barra da Tijuca.


Histórias do mar que leva, histórias que o mar quer te contar, de lindos contos que a areia, de amores quisera poder realizar. Mas em meio à terra dos homens, sonhos fenecem, paixões são dores.
Promessas que ao mar não cumprem, do mar para sempre te hás de lembrar. Pois que está é sua natureza, o que a ele dás, ele te devolverá; e isso inclui promessas vazias, preceitos sinceros e falas impensadas, que se ao mar destes, te hão de reencontrar.
Respeita as ondas, meus filhos! São elas que fazem o balanço do Bem e do Mal, e de muita ação impensada à beira d'àgua, destinos confusos e finais tortos poderão lá na frente vir a te importunar.
O que é no astral, nem sempre tem força pra ser aqui; e assim sofrem viúvas, órfãos e turbas que vagam sem um fim cumprir. Refazer um destino é missão que nem rei nem alfaiate se arvoram, não! Depois da meada solta, costurar não é pra qualquer agulha! Tem que ter 'dedal de ouro' e muita proteção do Bonfim pra remendar os panos, pedaços de vidas tristes que se perdem por aqui.
Por isso as sereias choram. Pelo que vêem e quem viu. Principalmente pelos amores todos, de pais, filhos, amantes, parentes, irmãos, vizinho ou vizir. Pois se Amar é a Lei e a Meta, desamar, é certo, náufrago ao mar...
Bianca cansou de não cumprir destino, e para trás Antonio Carlos deixou, levando seus dois filhinhos consigo, na boca da barra, quando a barca virou.
O marido como sempre estava longe, mas foi avisado e chegou para o enterro no terceiro dia a advir. Não abalado nem tonto, mas sem mais alma a lhe animar. Todo calor do corpo partira com Bianca em seu olhar, ainda que tempo fizera que dela ou dos filhos o brilho nos olhos viera contemplar.
Há quem dissera: “Agora casa de novo, e rearrumado está. Ouvi dizer que com uma bugra já está de cacho lá no Pará.”
Mas melhor soubera Clarice, que de branco, com a cabeça coberta, das obrigações no santo a lhe resguardar, no cemitério não adentrara, observando o cortejo fúnebre que ladeava a beira-mar.
“Nem tudo é para todos” – pensava. “Nem a vida que eu me quis me pertencia, pois apesar de moça assanhada, mais forte foi o santo que me queria, e aqui estou de preceito, vida nova que nem sei ao certo como será, pois ainda estou no berço, mas sei que é caminho. Caminho único, meu rosário e terço. Não sei porque com Toninho havia de ser diferente, se tantos homens amantes por toda vida afora têm. E daqui nada se leva; só experiência, momentos, bondade, prazer... Eu de fato nem era contra; tudo apenas 'fatos da vida' para mim...”

Mas com Antonio Carlos e Bianca não poderia ser assim. Eles eram pra ser sonho perdurado no jardim; uma lembrança viva de que é possível ser feliz e amar de verdade aqui. Mas no que parte de um todo se perdeu e de Ogum seu propósito se escureceu, a outra parte ele 'inverteu', impediu de 'iemanjar' sua Bianca, impediu-a assim de sua maior luz brilhar. Como só pra isso viera, sem isso não tinha mais porque ficar. Suas tristes lágrimas se juntam a tantas outras no mar. De amadas jogadas fora, de amando não se realizar, de amores não se manter, do Amor não se bastar.

O mar que ecoa aos teus ouvidos te lembra disso também. Ama hoje, ama muito; a quem não te ame também. Mas sobretudo sabei dar valor ao teu sagrado par, se vieste para a Terra ser exemplo desse Amar, não te percas em vielas que de ti só a dor virão lograr.


ATENÇÂO: este conto foi publicado gratuitamente em três partes visando colaborar com o Projeto do Clube dos Vira-Latas. Se você leu e gostou, por favor, click no link abaixo, conheça o clube e faça uma doação:

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