segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O Pai de Santo - parte I

O Pai de Santo


Pai Arruda
conto psicografado em 15/04/12 por Jennifer Dhursaille


O pai de santo era cético – ainda que dotado de um pouco de respeito. Fora feito pela avó, essa grande catimbozeira, consagrada, segundo ela mesma dizia, nas terras lá da Alhandra. Mesmo as sacerdotisas do Candomblé a tinham em alta conta, e para a que julgou a melhor dentre elas todas – “a mais porreta!” – enviou a filha, Carminha, a fim de ser devidamente, segundo os ritos dos antigos africanos, instituída – “Povo que é bom de mironga tem a pele mais pro café do que pro leite!” – e de antemão já dizia que com um preto retinto a casava, posto que era pra fortalecer o sangue!
Mãe Saninha, a catimbozeira que mudou-se da Paraíba para a parte sul da Bahia, era mulher de muito se temer, pois que acertava errando e perto dela se engasgavam muitos, até mesmo sem comer. Depois da filha mais branquinha, que era sua mãe Carminha, vieram mais sete filhos, pretos ou morenos, filhos de cafuzo ou descendente de escravo, conforme o humor da avó na época em que lhe convinha escolher os maridos. Com cinco anos, o neto no colo da avó ouviu:
“Vai ser de Xangô esse neguinho e é ele que vai tocar os tambor tudo daqui quando eu me for”.
Lhe batizaram com 7, na fé de Oxalá, Jesus Nosso Senhor, e na medida em que cresceu foi assim, de uma em uma potência, apresentado aos Orixás, yorubá e nagô, e aos 18 já tocava, como pai pequeno. Quando do falecimento de um dos avôs, mãe Saninha entristecida, de luto, uma dó só, arretirou-se do terreiro e da vida de autoridade religiosa – maior mesmo que sua filha, que era de fato consagrada. E foi assumindo assim, meio que empurrado, um passo para trás, dois para frente, Pai Eustáquio de Xangô Airá, pela hereditariedade autoridade indiscutível, pela formação também, mas cheio de dúvidas que escondia por trás dos olhos quase verdes que herdara d’algum português.
Não duvidava da vóinha – “Nem era doido, imagina! Quem?” Mulher mais temida não sabia, mas como ela esse poder tinha, isso ele não sabia, nem de filho algum explicação plausível ouvia. Os católicos da baixa do sapateiro diziam ter sido pacto com o demo, e na verdade, nem disso ele duvidava, pois vóinha era de meter medo e arriava todo tipo de coisas nas encruzilhadas, de que nem toda se saberia endereço ou autoria.
“Deus me livre duvidasse de Yemanjá de mãinha, tão linda e serena, quando vinha abençoando os seus filhos com os braços abertos na cadência do mar de Recife”. Nem era porque não tombava sempre, pois todo ele lhe ensinaram que bom pai de Santo nem mesmo precisava receber, mas sim de entender, e por isso fora letrado, nos búzios, colares, peneiras, voduns, inquices e orixás. Entender ele entendia, bem mais até que alguns doutor que vira e mexe vinha fazer ‘estudo’, pedia licença pra freqüentar o ilê, gravar os cânticos, tirar fotos para defender alguma coisa, ‘fazer justiça e proteger sua gente e sua cultura’, diziam, então ele permitia, afinal não era filho de Xangô à toa. Mas no domingo à tarde, com a família rodeada em frente à televisão, o povo já com a preguiça da segunda, que vinha à galope levar todo mundo a correr ganhar o pão, nessa hora de quase silêncio, na ressaca de uma engira até de madrugada, Eustáquio se encostava no muro da varanda, olhava o mar ao longe e pensava em todas as dúvidas sobre as quais nunca falava.
- E se fosse tudo aquilo uma imaginação das gentes? Uma que ainda boa, que dá força, alento, faz sonhar e seguir adiante, mas mesmo assim, não mais real do que faz uma criança ao acreditar no Papai Noel?
- Se tudo no fundo não bastasse de uma questão de fé, do mesmo jeito que uma missa ou um muçulmano faria dentro da mesquita?
-Se a sacralidade não estivesse, assim como a beleza, além dos olhos de quem vê?
- E se a mediunidade fosse um dom em extinção, e sendo ele um que não a tinha, e poucos, segundo sua visão, talvez a tivessem dentro do seu salão, e somente a esses coubesse o intermédio do mágico e do divino?
- Seria ele, mesmo que a contragosto, um charlatão?
- E se a única pessoa bruxa mesmo que todos ali conheceram fosse mesmo Vó Saninha, que mesmo agora morta ainda controlasse a todos eles, como dentro de um feitiço, um bem bem-feito daqueles que diziam que ela fizera em sua juventude, virando um sino de cabeça pra dentro e emborcando um padre inteiro dentro, que lhe proibira entrar dentro da igreja com seu cortejo?
- E se fosse verdade o que lhe diziam, que gostava de homem porque lhe haviam passado Xangô na frente de Logunedé, que era de fato seu orixá de cabeça?
- E se todos os deuses, de todas as mitologias do mundo fosse só os outros nomes dos orixás? E se os orixás fossem só os deuses de todas as outras mitologias do mundo batizados com um nome africano?
- E se tivesse ele nascido em São Paulo em uma família judia, teria mesmo que cumprir essa ‘missão’ segundo lhe diziam, de manter aberta as portas aos necessitados de axé que um dia a avó abrira?
Eustáquio sofria as penas de ser um indagador, e como todo aquele que questiona por compulsão, amiúde não encontrava respostas para suas indagações e em breve começava a padecer de um grave tormento chamado “A Perdição no Labirinto dos Questionamentos”.
Mas ele não era o único sacerdote desassossegado em sua fé...
To be continued...
Esse conto será publicado em três partes, quinzenalmente.
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