domingo, 14 de setembro de 2014

O Pai de Santo - parte II

O Pai de Santo
# Parte 2 #


Pai Arruda
conto psicografado em 09/03/2014 por Jennifer Dhursaille
Valtinho vinha no ônibus, após dar entrada nos papéis para sua inscrição em um dos planos assistenciais para alunos de famílias de baixa renda e minorias, que antes desprezadas, agora visadas eram nas investidas governamentais para dominação das massas. “Caridade” Valtinho sabia que não havia, nem era disso muito menos que necessitava, visto que 'a nação do futuro' de impostos já lhe cobrara muito mais do que devia, sem o 'troco' ao menos lhe devolver dessa 'parceria', entretanto avançar Valtinho necessitava na vida, e para sair da soleira da estagnação estudar, ele sabia, era do que mais carecia. Uma bolsa universitária ele solicitara, e se sorte tivesse ou a Justiça se fizesse, a Matemática, a Logística ou a Física Robótica para a Medicina Integrativa logo um novo gênio teria. Com o pensamento longe, um cutucão no seu cotovelo e ombro esquerdos lhe tiraram o olhar perdido ao largo a vaguear pela janela:
- O quê?!... - exclamou massageando o ombro dolorido e procurando explicação, ou pelo menos um pedido de desculpas do descuidado agressor.
Mas já ia para além do meio da condução o passageiro de chapéu, casaco e calças escuras, que sem lhe olhar na face o saudou:
“- Boas noites, professor...”
Professor ele seria, ou pelo menos é o que pretendia ser, de alguma coisa assim bem digna, real refúgio do saber, onde os anos de olhares dúbios e comentários jocosos aturados por uma vida inteira de quem viu sua infância e adolescência transcorrer de dentro de um barracão pudessem enfim ser esquecidos e respeito – daqueles dos bons – lhe deveriam todos os seus vizinhos; não mais por ser pai de santo, mas pelo canudo em Exatas que estaria sempre pronto a voar nas ventas daquele que ousasse mais uma vez chamá-lo de 'neguinho sem educação'. Mas como aquele senhor de voz grossa e roupas impropícias para o calor da Bahia disso sabia, ele idéia não fazia. Considerou então o óbvio:
“Deve ter me confundido com um outro alguém.”
Ônibus encheu, quase uma hora passou, mas ainda faltavam vários minutos até que Valtinho o seu ponto de chegada avistaria quando, como de costume, a muvuca se formou nos dois pontos de principal afluxo/defluxo de passageiros, o ponto do mercadinho do Chico e da farmácia ao lado da Sapataria Central. Valtinho estava sentado no banco imediatamente à frente da saída intermediária da lotação, e podia por isso até sentir na nuca o vento causado pela movimentação da descida da afligida população. Instintivamente inclinou-se para frente, a fim de que alguma dona de casa abarrotada de sacolas não lhe batesse com a bolsa na cabeça durante a eufórica evasão do único meio de transporte oferecido à sofrida povoação. Foi quando sentiu uma mão pesada a lhe segurar a nuca, e novamente a voz arguta a lhe estremecer o coração:
“- À noite venho ter contigo, para uns nossos assuntos resolver.”
Valtinho levantou-se de pronto para avistar aquele estranho senhor, mas entre lenços de cabeça e bolsas, muitos braços e quadris das avós protegendo crianças, só avistou a saída de um braço pela porta afora, a manga negra e uma abotoadura dourada, antiga, do tempo que há muito já não se usava mais. Pensou:
“Coitado! Vai me esperar sentado, tomando por outro o atraso do que combinou sozinho! Ai, só por Deus! É cada uma que acontece...”
Mas por mais que a lógica assim lhe ditasse, incomodado estava e continuou. Ao chegar em casa, no banho se perguntou:
“E se o tal cara que ele espera lhe deve dinheiro, e ele ache que sou eu, e resolva me apagar? Só me faltava agora que quero mudar de vida me aparecer esse senhor me tomando por outras negas e me cobrando de algo que eu nem fiz! Valtinho morto pelo pecado alheio? Credo em cruz! Valha-me, Nossa Senhora!”
Nem sabão nem o sal, do banho ou da janta com tia Nezita, fizeram Valtinho esquecer a sensação de mal estar. Valtinho desceu as escadas da varanda após concluir que devia 'cheio de egun*' aquele homem estar - “só podia” - para justificar o desassossego que sentia.
- Quer saber? Eu vou pro bar, com meu povo papear. Alguém há de lá estar para minha mente refrescar antes de eu ir para casa dormir!
E pro bar dos amigos foi, mas frequência muita lá não tinha, só uns três gatos pingados mais a garçonete Marita mais o dono, seu Jarbas. Amigo mesmo nenhum, só mesmo a no batente Marita.
- E aí, meu nego lindo, que manda? - disse a mulata aos quarenta sorrindo.
- Ai, amiga, nem te conto! Vim exorcizar umas energias ruins por aqui!
- Oxi, mas se o pai de santo não dá conta do capeta, que vai ser de nós pobre mortais? Hein, seu Jarbas?
- Pois é... - começou o dono, falando o que sempre falava fazendo o que sempre fazia quando algum cliente tentava lhe puxar para qualquer conversa: lavava e secava mais um copo.
- Olhe só, minha nega, pra começo de conversa, quem exorciza o demo é padre, e não pai de santo. Pai de Santo oferece marafo pros 'rabo de encruza'* deixar ele em paz! Mas nem é por isso que eu vim aqui, porque se você quer saber, eu tô quase terceirizando o terreiro, deixando tudo nas mãos da mãe-pequena, que agora eu vou é cuidar da minha vida prática. Eu vou ser professor! Tá bom pra você? Agora me dá aí uma...
Marita ria largada do jeito de Valtinho. Só por hábito chamou seu Jarbas, que deu seu “pois é” e lavou mais dois copos, mas não percebeu a cara de quem viu assombração do pai de santo, que olhou pra baixo, para fora, pro lado e para Marita novamente, na terceira vez em que ela insistiu em lhe perguntar qual a preferência da bebida para a noite.
- Me dê aí – disse ele lento – qualquer coisa doce e forte.
- Doce e forte é catuaba! Vai aguentar depois o tranco?
- Deixe de dengo e traga logo essa bebida – respondeu Valtinho se encostando no banco ao balcão.
Só de olho ficou, branco e apavorado, observando a figura de negro à mesa perto do portão à esquerda dos engradados por consignação. Cabeça baixa, bebia o que parecia pinga, cruzava os dedos onde se via um anel – coisa cara, grande e fina, a pedra quadrada vermelha luzia – entre os pelos da mão que subiam até encontrar no punho o fecho com a abotoadura, o paletó, os sapatos, a cartola à mesa e a barba baixa. Olhar não lhe dirigiu; solene, somente à garrafa atenção estendia.
Marita acabou por perceber que algo não ia bem com Valtinho. Chegou-lhe agora com outro tom, e lhe indagou:
- Que foi, meu lindo? Diga pra Marita o que está lhe desassossegando?
Ele a olhou e fez sinal para o local discretamente, para que ela visse o misterioso homem. Marita olhou e fez cara de indagação.
- Faz tempo que ele está aqui? - perguntou mais com os lábios do que emitindo sons.
- Não...
- Você sabe quem é?
- Não... Eu...
- Vi hoje no ônibus – sussurrou o mais baixo que pôde. Me cutucou, disse que vinha tratar de um assunto comigo. Acho que me confundiu com algum outro! Tô com medo que seja algum agiota...
- Acho que não.
- Mas você conhece?
- Não...
- Então, acha baseada em quê? Tá louca!? Eu morrendo assassinado no lugar de outro e você 'achando'
coisa sem pé nem cabeça, mulher!?
- Eu só estou dizendo que acho que agiota não é. Além disso quem não deve não teme...
- Ai, que frase ótima pra você ir falar para um futuro defunto! Eu amanhã morto quero ver você repetir essas idiotices no meu velório!
- Calma, homi, é muito drama pra pouca coisa!
- Como assim pouca coisa? Você já viu as roupas que essa criatura está usando? Quem usa uma roupa dessas nos dias de hoje, me diga? Não é época de carnaval, é o quê, então? Inocente...
- Ele já veio falar com você?
- Se desde que eu cheguei aqui só falei com você, como é que você vem me fazer uma pergunta dessas, mulher?
- Vamos esperar e ver se ele vem falar com você, então.
- Não sai daqui! Não me deixa sozinho, fica de olho nele! Avisa seu Jarbas!
Tudo isso sussurrou nervoso Valtinho e engoliu de um trago sua catuaba. Com o canto do olho observava o homem de preto, que gesto não fazia. No que Marita voltou de pôr umas garrafas no freezer, o pai de santo assustado a inquiriu:
- Já perguntou pro seu Jarbas?
- Ainda não.
- Mulher lerda!... Mas também já sei o que ele ia dizer...
- Pois é...
- Ai, até você, Marita!?
- Calma, homem, você tá muito nervoso.
- Vai lá, oferece outra bebida pra ele. Vê se ele fala alguma coisa.
Marita titubeou.
- Ah, agora tá com medo, né? Cadê a calma toda da realeza, hein?
- É que...
Valtinho olhou e arregalou os olhos.
- Foi embora! Ele foi embora! Cadê, cadê ele? Vai, Marita, corre pra porta, vê pra onde ele foi! Vê se tá com alguém, se tá de carro, se está acompanhado por algum comparsa! Vai senão não saio daqui hoje, durmo aqui dentro do bar, e nem deixo você ir embora também. Se eu for pro Além você vai comigo de companhia, só por não ter acreditado em mim!
-Mas eu acredito, meu lindo...
- Vai, vai sua lerda! Vai ver pra onde ele foi antes que ele suma!
Marita foi devagar, olhou para os dois lados da rua; voltou secando as mãos no avental.
- Nada. Lá fora não tem nada.
- Vai lá, pergunta pro seu Jarbas se ele sabe quem esse homem é.
- Melhor não...
- Como 'melhor não'? Alguém deve saber alguma coisa desse homem, de onde é...
- Seu Jarbas não conhece, não.
- Mas não custa perguntar! Vai lá, vai, Marita! Ai... eu tô nervoso!
-Melhor deixar pra amanhã. Faz assim: eu vou com você até sua casa, pra você ficar mais tranquilo. Seu Jarbas já está fechando aqui o bar e ele não gosta de enrolação nessa hora que é a mais perigosa pra ladrão.
- Sei, com ele cuidado pode, comigo não, né?
- Não estou lhe dizendo que vou lhe acompanhar até sua casa? Vamos, pague aí sua bebida que vou fechar o caixa e lhe levo são e salvo. Ô pai de santo mais medroso que já vi na vida!
- É melhor você ir parando com essa coisa de pai de santo e ir treinando pra ir desde já me chamando de 'professor', que é isso que eu vou ser, viu?
- Sim, senhor, 'Painho Professor”! - riu Marita.
Desceram a ladeira com Valtinho contando tudo de novo desde o ônibus como se lembrava dos ocorridos, e Marita só ouvindo sem interromper. Chegaram em casa de Valtinho, e ele já se preparava pra se despedir da amiga e adentrar o portão, quando rua abaixo, encostado a um poste, o mesmo homem ele viu.
-Marita – disse quase chorando, entre esganiços – é ele! E agora o que eu faço? Chamo a polícia?
-Melhor, não. Se eu fosse você ia lá falar com ele.
- Tá louca? Ele vai me matar!
- Vai não.
- Como você pode saber?
- Porque esse tipo não mata ninguém, não.
- E desde quando você conhece tipo que mata e que não mata?
- É muito simples, meu lindo: morto não mata vivo. Só vivo é que mata.
Valtinho olhou pra ela sem entender.
- Olhe, Valtinho, eu sei das suas dúvidas lá com o 'Blé'**, sei que você herdou o cargo da sua avó mas sempre duvidou se seria você mesmo a levar aquilo tudo adiante, e sei também principalmente da sua indignação com as bestagens que esse povo diz por aí... mas hoje, meu lindo, meu querido 'futuro professor', você tá vendo com seus próprios olhos aquilo que a sua avó já vivia. O que você está vendo não é desse mundo, mas do outro. Do reino de orixá.
- O que é que você tá dizendo, louca?
- Que lá no bar não tinha ninguém, homem nenhum sentado lá onde você falou. Nem lá no poste eu to vendo pessoa alguma. O que você tá vendo é só pra você ver. E não adianta você querer fugir, se ele veio desse outro lugar pra falar com você, você não tem escapatória. Melhor ir logo ter com ele e ver o que ele quer. Desce lá e vai falar com ele. Eu espero você aqui, tá bom?
A calma de Marita poderia ter irritado Valtinho, não fosse ele mesmo já estar se sentindo meio anestesiado pela visão do estranho homem. “Lesa” - ele pensava. “Essa Marita é lesa”... mas a passos largos ele se encaminhava meio que hipnotizado pela figura de negro envolta em luz vermelha junto ao poste. Ninguém mais na rua, além de Marita, viu, quando o exu sua capa no ar balançou e Valtinho em frente a ele se ajoelhou, mãos para trás em garra e uma risada profunda no ar ecoou.
Valtinho, sem escapatória, seu 7 Encruzas incorporou.
* 'eguns' e 'rabos de encruza' são alguns dos nomes e expressões comuns entre praticantes dos cultos afro-brasileiros para designar espíritos já falecidos que vagam entre os vivos, prejudicando-os
** forma curta como alguns se referem ao Candomblé, embora convém deixar claro que, pelas palavras das personagens tanto neste como no próximo capítulo, eles não cultuam o candomblé original, mas uma forma mista entre Candomblé e Umbanda, que não se discute aqui os méritos, mas sim apenas se constata sua existência.
To be continued...
Esse conto será publicado em três partes, quinzenalmente.
Está ansioso pela continuação e não deseja esperar? É simples...
Para receber o conto integral “O Pai de Santo” em formato de arquivo [.doc] diretamente na sua caixa postal, faça uma doação de qualquer valor para o Clube dos Vira-Latas e envie um e-mail comunicando a doação (não é necessário dizer o valor) para abruxadomar@gmail.com.

www.clubedosviralatas.org.br

Nenhum comentário:

Postar um comentário