segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O Pai de Santo - parte III final

O Pai de Santo
# Parte 3 #
Pai Arruda
conto psicografado em 16/03/2014 por Jennifer Dhursaille






Um crê em si mas duvida de todos os outros e até das entidades. Outro que admira a luz nos outros mas não admite que ela possa brilhar também em si. Que bela dupla! Vamos juntar para ver se a acidez de um anula a amargura do outro. E quem sabe dessa mistura não se adoça a vida de ambos. Tá me entendendo, num tá?”

Seu 7 Encruzas para Marita durante a primeira incorporação de seu médium Valtinho, pedindo a esta que o apresentasse a Eustáquio.

             

   Eustáquio preciava de um milagre; Valtinho de um choque de realidade.
                Quando dois sacerdotes, com potencial para ajudar a muitos, arriscam se perder – não por frescura! Mas por ferimentos reais dos espinhos que acompanham o poder – logo o Astral vem em ajuda, para não deixar cair do ninho passarinho que foi feito para bem longe voar.
                Marita procurou Eustáquio, por ser este mais experiente, a fim de buscar ajuda para seu amigo Valtinho. Explicara a situação, que o cético pai de santo um tanto curioso ouvira.
                - Mas ele tem o chão* dele aberto, não tem?
                - Tem, que herdou da família, mas na prática quem toca são as tias e as irmãs, que ele está cada dia menos interessado. Ele foi assim, meio que entronado à força no cargo pela vontade da avó, não sabe?
                “Que nem eu” - pensou Eustáquio.
                - Mas agora está louco para largar tudo e ser professor. Vai fazer faculdade e acho até que é por isso que aconteceu o que aconteceu e que eu estou aqui te contando. Como eu disse, ele nunca tinha incorporado esse tipo de entidade de Umbanda, só orixá vinha nele, às vezes, quando ele tava mais de boa vontade lá no terreiro e quando era uma das tias que ele gostava que tava tocando a roça... Porque se fosse uma que ele não gostasse, ele nem aparamentado ia, só pra fazer desfeita mesmo! Nem tava nem aí pro santo!
                - E como é que ele tá agora?
                - Assustado! Assustadíssimo! Ainda mais que não se lembra de nada do que o exu disse. Tive eu que passar pra ele todos os recados, e o principal deles era que esse exu falou que queria que ele fosse ter uma conversa sobre Fé e Responsabilidade com um bom pai de santo daqui. Daí falei: “Ó, Valtinho, o único pai de santo bom, de moral ilibada que a gente conhece aqui na baixa é Pai Eustáquio. Eu, fosse tu, ia lá falar com ele.”
                - Diga para ele vir na sexta, lá pelas três da tarde que eu vou jogar os búzios e ver o que sai pra ele; se tiver alguma obrigação, algum impedimento, ele, sendo pai de santo também vai saber o que fazer. A minha parte eu faço, agora... aceitação, você sabe, né Marita, é coisa de dentro de cada um!
                - Eu sei, é claro, Pai Eustáquio, mas embora assim teimoso feito mula, Valtinho é menino de muito bom coração. Merece uma segunda chance, não só de orixá mas também, eu acho assim, na minha opinião, de ouvir uma palavra de alguém assim mais sério, porque sempre fez as coisas mais empurrado pela família dele. Às vezes a juventude de hoje precisa entender melhor os 'porquês'. O que sempre irritou Valtinho foi dizerem que ele tinha que fazer as coisas por obrigação, porque tinha e pronto! Isso foi deixando ele indignado, entende?
                - Eu entendi. Diga a ele que se quiser jogo os búzios. Que venha na sexta.
®
                E sexta chegou com Valtinho pela primeira vez na vida adiantado, cerca de quinze minutos, batendo à porta da frente da casa de Pai Eustáquio de Xangô Airá.
                Eustáquio abriu a porta e estranhou. “Menino de tudo” - pensou. Olhar tão jovem num semblante infantil atormentado. Pena veio instantaneamente, e no combustível da compaixão, Eustáquio convidou o menino-pai-de-santo a adentrar o barracão; o pôs à vontade sentado na parte posterior do templo reservada aos atendimentos, e deixou-o contar, abrir seu coração, de cada dúvida, medo e emoção que Valtinho experimentara, desde os 9 anos na lide de futuro pai de santo escolhido do seu barracão. Ele tinha sangue real**, isso Eustáquio podia ver, e experimentara coisas que se fora consigo, muitas de suas dúvidas não existiriam. “Como então?” se questionava, se a experiência real ele tinha, por que duvidaria? Eustáquio tinha mais estudo, mais palavra explicada e uma maior tendência à filosofia, mas no terreno da comunhão com as energias únicas de orixá, Valtinho saia de longe na frente. Só não estava acostumado a 'compartilhar' seu corpo e sua mente com o que considerava um “egun”, o misterioso homem de roupas escuras e abotoadura de ouro que lhe enroucara a voz e deixara bem claro à sua amiga Marita, no lumiar da noite, numa esquina noturna onde nem sapo coaxa e nem coruja pia:
                “ - Esse não vai sair do serviço, não! Pode avisar: é 2 passo pra fora e 7 pra dentro do barracão! Quer ir estudar, pode, mas se quiser, vai ser doutor de branco e palha da costa, sentado na cadeira que é o trono dele lá no barracão!”
                - Como é que pode a gente não ser dono da vida da gente!? - inquiriu esperançoso da compreensão do colega de vaticínio.
                - Mas tudo tem um porquê, né, Valtinho? Uma coisa que minha avó sempre dizia, e que até hoje não posso de tudo desdizer, é  que orixá sabe o que vai fazer de fato a gente feliz na vida da gente, e a gente que às vezes foge do próprio destino no desejo de experimentar coisas diferentes.
                - É, isso é... Mas, me diga uma coisa: Marita me contou que você também foi feito por sua avó, que também herdou cargo hereditário. Você nunca se perguntou o que teria sido da sua vida se suas escolhas tivessem sido diferentes?
                - O tempo todo. Não tem um dia em que eu não me levante da cama e ao fazer a barba diante do espelho não me imagine vivendo uma vida completamente diferente – concluiu, a ver perplexa a face de Valtinho ao espelhar a sua própria frustração.
                - E por que você nunca largou tudo?
                Eustáquio riu e fez sinal para uma mocinha trazer um chá gelado para os dois.
                - Porque lá pela minha terceira xícara de café eu já me lembrei porque é que eu estou nessa vida e não fui embora ontem, nem anteontem, nem antes de antes de ontem...
                - Obrigado pelo chá – dirigiu-se tanto a Eustáquio como à menina. Aliás, sem querer interromper, já interrompendo, é só uma coisa que eu queria comentar desde que cheguei aqui! É que eu acho lindo, lindo seu orixá! Desde menino meu sonho era receber Xangô Airá! Juro!
                Eustáquio riu; Valtinho era muito engraçado, de uma espontaneidade natural que contrastava com a parcimoniosa ponderabilidade do pai de santo mais velho.
                - Você recebe quem na sua coroa?
                - De verdade, de verdade mesmo, quem eu mais sinto é Iansã, mas minha avó decidiu por bem passar Ogum na frente*** e me entregou a ele, o que obviamente não adiantou nada! Então, embora eu não use o título, o certo mesmo é Pai Valter de Ogum Dilê. Ai que horror! O santo que me desculpe, mas eu acho uó esse nome! Preferia ser mil vezes Pai Valter de Iansã, porque é muito mais a minha cara, vamos combinar?
                - Eu era de Logunedé – disse num suspiro, depois de respirar fundo, pai Eustáquio.
                - Num brinca? - exclamou sério, Valtinho.
                - Minha avó, aparentemente pelo mesmo motivo da sua, passou Airá na minha frente. Dizia ela que queria garantir a sucessão do terreiro através de uma filha minha.
                - Você é casado? Já tem filhos? - perguntou um tanto receoso da resposta.
                - Não, e duvido que vá ter! - respondeu Eustáquio balançando a cabeça – Já tenho problemas demais para cuidar e minha avó ainda queria me arrumar uma família! Já chega a do terreiro!
                - Ah, bom! Bem, sempre se pode adotar, num é mesmo? Vai que um dia você se casa e adota uma menina bem porreta daquelas que a gente olha e já sente que vai girar muito no barracão. Daí ela fica sendo a sua herdeira! - sugeriu com certo excesso de entusiasmo Pai Valter de Ogum Dilê.
                Após alguns instantes de silêncio, Eustáquio retomou o rumo da conversa:
                - Mas, então, como te falei, eu acho que estudar vai dar o equilíbrio que você está precisando na sua vida e na sua idade. Eu noto que você se incomoda muito com o desrespeito dos outros. O diploma vai melhorar a forma como você se vê e também ajudar a seus filhos no terreiro a repensarem o seu próprio valor e poder dentro da comunidade.
                Valtinho estava encantado com tudo o que Pai Eustáquio falava. Um sorriso amplo no rosto que parecia que jamais o deixaria. Mas deixou. Assim que Pai Eustáquio a figura de preto evocou.
                - Quanto ao exu de Umbanda que você recebeu, estão cada vez mais comuns as manifestações dessas entidades, que não devem ser consideradas 'eguns', mas sim como manifestação da nossa ancestralidade coletiva nos ilês. Aqui mesmo no meu tem quem receba preto-velho e boiadeiro, uns dois recebem exu e bombogira catiços assim que nem esse que você recebeu; caboclos todos recebem – isso desde o tempo  do segundo marido de vóinha. Eu mesmo com quinze anos já recebia dois caboclos diferentes; você não deve de se espantar, não, muito menos de ter medo.
                - Mas eu já vi Exu Elegbara, tem um filho dele no barracão. É uma coisa muito diferente, viu? Não só no visual como na energia que a gente sente. Eu até agora não sei categorizar esse ser que me dominou na frente de um poste e conversou com Marita através de mim cerceando todos os meus intentos! Ai, me desculpa, mas acho muito desaforo!
                - Olha, Valtinho, eu sinceramente não tenho a experiência em 1ª pessoa no nível que você tem. As minhas dúvidas todas vêm do fato justamente de que eu queria uma prova assim cabal, que acontecesse alguma coisa que quebrasse a minha vontade em quatro, não me deixasse argumentos e nem escapatória para eu 'achar' mais nada que não fosse a realidade inquestionável do fato, e nada mais do que o fato fizesse qualquer sentido. Embora eu te entenda, do meu ponto de vista você foi abençoado e não 'cerceado' porque você nunca vai ser atormentado pelo tipo de dúvidas que eu tenho, que, acredite, são bem difíceis de lidar!
                - Mas Eustáquio, você passa uma firmeza, uma certeza de que sabe daquilo que está falando para os outros! Eu queria poder passar uma imagem assim para os meus filhos de santo, mas eu sou muito 'tranqueira'...
                - Não fale assim! Se orixá escolheu você é porque sabia que você podia dar bom fim à sua missão e ao sagrado serviço de representá-lo na sua comunidade. Só não será assim se você não quiser.
                - Foi bem isso que o tal Exu das 7 Encruzas falou para a Marita... que ele não ia deixar eu me desviar da rota que já existia para mim...
                - Me parece que o que te incomoda é a noção de que os outros estão escolhendo o teu destino, e não você...
                - É isso! Exatamente isso...
                - Mas veja, se foi você que determinou, junto ao orixá antes de nascer qual seria o teu caminhar nestas bandas do lado de cá, daí você pode encarar esses recados do seu 7 Encruzas como um lembrete de você mesmo para que você não se esqueça da jornada que decidiu lá atrás que queria trilhar.
                - Se for assim, daí o seu 7 Encruzas deixa de ser um inimigo enxerido para ser meu melhor amigo; aquele que vem me lembrar do que eu mesmo quis, mas esqueci. Não é isso? - elaborou Valtinho, dando seu melhor modelo de aluno exemplar.
                - Eu costumo dizer que a amizade se prova com o tempo, tanto as com o povo daqui como com os seres do lado de lá. Mantenha a calma e espere para ver como as coisas se encaixam com você seguindo os dois caminhos, o acadêmico e o espiritual. Vá equilibrando como se fossem duas obrigações distintas mas que se cruzam na garantia do bom sucesso da sua missão.
                - Vou fazer isso, sim. Ai – segurou nas mãos do novo amigo – foi tão bom ter vindo conversar com você!
                - No que precisar estarei sempre à disposição – respondeu um tanto tímido, meio sem jeito, mas pleno de retidão e a melhor intenção, o pai mais experiente.
                Despediram o mais novo e o mais maduro, um caminhando mais tranquilo, o outro adentrando o lar com o coração mais cheio de esperança. De longe veio o grito, lá do meio da rua mesmo, fruto da ansiedade do menino-homem em aliviar sua curiosidade e tormento:
                - Ô, Eustaquinho, diga lá, o que é que aquela terceira xícara de café lhe faz lembrar que você não desiste pra tudo largar?
                Eustáquio respondeu sorrindo:
                - Tem sempre alguém no mundo perdido, precisando de um ombro ou de uma palavra amiga.
                - Assim que nem eu? - riu-se andando pra trás o Valtinho.
                - Que nem eu!

*terreiro
** mediunidade
*** uma prática comum, embora equivocada, em alguns terreiros que consideram que determinadas filiações de orixás induzem ao homossexualismo, e por isso, tentam 'mudar' o orixá de cabeça da pessoa entregando-a a outro
               

  Originalmente
Esse conto foi publicado em três partes, quinzenais.
As pessoas que não desejavam esperar pelas publicações eram convidadas a fazer uma doação de qualquer valor para receber integralmente o conto em formato de arquivo [.doc] diretamente na sua caixa postal.
Se você chegou aqui após a data da publicação da terceira e última parte, peço que você dê um minutinho do seu tempo para clicar no link abaixo e conhecer o maravilhoso trabalho do  www.clubedosviralatas.org.br . 
Animais que sofreram pela ação cruel do homem infelizmente ocorrem aos montes e o clube precisa da ajuda de pessoas sensíveis como você para poder continuar dando a esses torturados animais uma segunda chance.
Conheça, divulgue, compartilhe e se puder, por favor, faça uma doação de qualquer valor.
A sua ajuda é muito importante.
Obrigada!
Jennifer Dhursaille


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