terça-feira, 3 de março de 2015

Um Conto de Yabás

Um Conto de Yabás

Um homem caminhava solitário, cansado e sem alegria em seu viver.

Ele lembrou-se do seu pai, que tivera a sua mãe, e pensou: “Que bom seria que eu, assim como meus ancestrais, também tivesse uma companheira.”

Então o homem ajoelhou-se e orou para que o Espírito daquilo que É colocasse em seu caminho uma companhia adequada.

Pouco depois em sua caminhada ele encontrou uma mulher que sacudia suas roupas em meio a uma clareira; a seus pés jazia uma espada, e com uma mão ela cobria sua orelha com um lenço. O homem parou e apenas a observou, mas antes que tivesse tempo de dizer qualquer coisa ela olhou para ele e começou a gritar e chorar amargamente, enquanto voltava para as suas batalhas, bradando às quatro direções que jamais seria o suficientemente amada, apesar de amar demais...
O homem lamentou, pois achou-a bela e corajosa, e ele queria ter ouvido a sua história, e quem sabe, aliar-se a ela.


Mais à frente no caminho ele encontrou um rio onde uma linda moça com ares de menina se banhava. Sua pele brilhava como ouro ao sol e ele a desejou. A menina sorriu e em seus olhos ele viu que ela o faria imensamente feliz, tão feliz como homem algum jamais sonhara, pois ela tinha cheiro de mel, e tudo nela era doce e perfeito, da voz às mãos, do charme à razão. Com ela ele teria o mundo, desde que estivesse disposto a oferecer tudo aquilo que ela merecia, pois ela sabia de seu valor, e seu amor não seria gratuito. Ele precisaria dar a si mesmo, pois preço menor ela não aceitaria.

Incerto se poderia atendê-la, ele seguiu adiante, chegou a uma região pantanosa onde se deparou com uma mulher mais madura, cuja beleza misteriosa o deixou intrigado. Antes que ele tivesse tempo de observá-la melhor ela detectou sua presença e veio em sua direção.

“Eu sei o que lhe vai no fundo da alma. Eu sei o caminho para curar as suas dores. Venha comigo, e eu te transformarei.”

Mas o homem não se conhecia o suficiente para aceitar a proposta, e com medo de se despedir daquilo que não tinha certeza de ser e se tornar aquilo não sabia que era, ele afastou-se para longe, até não mais avistar os mantos lilases que a cobriam.

Seguindo seu caminho ele chegou ao mar e ali avistou uma mulher de aspecto nobre, que não era nem tão jovem nem tão madura, mas com certeza era uma mãe, pois tudo nela rescendia a aconchego e acalanto. Quando ele se aproximou ela o viu e lágrimas verteram de seu olhar por todas as dores que ele já tivera, por todas as que ainda teria. A capacidade de amar da mulher era tal que ele se sentiu indigno de aproximar-se, ainda que ele soubesse que tudo ela lhe daria, sem nada pedir em troca. Se um dia ele se afastasse, ela sofreria, mas estaria sempre de braços abertos para recebê-lo e dar tudo de si, pois esta era a sua natureza, a doação profunda.

O homem então continuou seu caminho até que começou a chover e no alto de uma montanha ele avistou uma mulher que dançava entre os raios. Ele aproximou-se e notou que ela o viu, mas não lhe deu importância, e continuou a bailar com os ventos. Sem se conter o homem perguntou:
- O que queres de mim?
E ela respondeu:
- De ti nada quero.
- O que queres para me acompanhar?
- E estou bem onde estou e como estou e se queres que te acompanhe, cativa-me tu, pois só ando ao lado daquele que tiver algo para me ensinar. Não dou, nem peço. Eu só sei trocar.


Indeciso o homem continuou seu caminho até encontrar com seu avô, que de tão velho e sábio já havia se tornado em árvore. À sombra da sabedoria do velho, o homem jovem perguntou:

- Pai, qual mulher devo desposar? Estou confuso, não sei a qual delas devo minha vida juntar.

O Pai Velho soprou suas barbas para dentro dos ouvidos do neto, para que ele lhe ouvisse melhor:

“- Filho, toda mulher é uma bênção para cada coração, mas para saber escolher a sua, é preciso ponderação. O homem que não se conhece, não sabe o que procura, não reconhece o que encontra e não lida com o que recebe da forma correta. Por não conhecer a si mesmo, muitos homens transformaram suas bênçãos em maldições. A mulher pouco amada torna-se amarga e vingativa; aquela que tudo tem pode tornar-se uma tirana; a que não ouve nada de novo aprende; a que só doa nada retém; e com a que não é compromissada não se pode contar também. 

Da mesma forma será recompensado com fidelidade impar aquele que souber curar um coração partido; viverá um júbilo sem fim aquele que à sua mulher souber se entregar sem reservas; um poder inigualável descortinará aquele que ousar permitir ao poder da mulher que o transmute; ser o guardião daquela que de si a todos oferece o  seu melhor faz do homem o mais valoroso dos reis; e por fim, aquele que souber ver em sua companheira a extensão de si mesmo e do seu aprendizado nessa terra jamais conhecerá o tédio e na terra dos homens não viverá privado nem da paixão nem do entusiasmo por tudo aquilo que é o novo.


Então, filho, antes de fazer a tua escolha, analisa primeiro a tua alma, verifica qual é a tua real necessidade duma companheira e só daí então, voltes lá, ao encontro da bênção que te cabe neste momento de tua jornada.”

Nenhum comentário:

Postar um comentário