segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Dois Pais de Santo, Dois Pontos de Vista

DOIS PAIS DE SANTO, DOIS PONTOS DE VISTA

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No livro “A História de Pai Arruda” vemos que a disputa por médiuns entre pais de santo de terreiros diferentes sempre existiu. Neste trecho, através da conversa entre um pseudo-sacerdote auto-empossado e um que de fato é vocacionado mas abriu mão do cargo, o poder magístico sempre é alvo de disputa por motivações muito mais políticas ou que sirvam à vinganças pessoais do que de ordem religiosa:

“Naquela noite Tomé despistou as atenções de Tiziu e na calada da escuridão rumou sozinho até o terreiro de Benguê, onde já era esperado. Ao chegar à entrada fez uma antiga saudação africana simbolizando respeito ao solo sagrado onde baixam os orixás, pegando do chão com a mão direita um pouco de terra e elevando-a ao alto, deixando-a cair à terra.

- M’agbô * Tomé.

- Ori da awe * Benguê. Um filho de santo seu me falou que ocê queria falar com eu.

Pai Benguê fez sinal para Tomé sentar num tronco de árvore deitado no meio da choupana rasa que servia de casa e local de atividades mágicas de Pai Benguê. De certa forma uma regalia provida pelo medo de d. Maria Luiza, cujos filhos mais de uma vez precisaram ser benzidos por Pai Benguela. Após a morte deste, embora a contragosto do marido, a esposa intercedeu para que Benguê pudesse continuar ocupando a casa que fora do antigo preto-velho e pudesse continuar tratando dos pretos, embora ela nunca mais tivesse levado os filhos para o novo sacerdote africano da fazenda.

Benguê era um negro magro que trazia sempre o peito desnudo e os cabelos compridos e desgrenhados, recobertos de colares e enfeites estranhos feitos de folhas, raízes, ossos e dentes de animais; ele também tingia partes do corpo com uma tintura vermelha e preta, inclusive nos lábios a cor escura contrastava com os dentes, escondendo a cor natural da pele. De olhos esbugalhados e movimentos que lembravam ora os de uma aranha, ora os de uma lagarta, a pele de Benguê emitia um brilho oleoso, e um cheiro enjoado subsistia no local não encoberto pelas madeiras e ervas queimadas no local durante os cultos. Apenas uma fogueira iluminava o local do encontro entre os dois sacerdotes da Fazenda São João, o oficial e o clandestino, projetando sombras fugidias nas paredes, que pareciam desviar de outras, mais reais, quase materializadas no local.

- A filha das cobras está aí e dessa vez veio para ficar – disse Benguê riscando o chão com seu cajado.

- Mas Ana e dona Izabel falaram que o Sr. Martim vai arrumar casamento pra ela na cidade.

- Não vai, não. Ela vai ficar aí mesmo. E vai nos destruir – sentenciou olhando pela primeira vez, desde o início dessa conversa, Tomé nos olhos.

- Até ela, sendo pouco mais que uma menina, sabe que não pode haver uma fazenda sem escravos.

- Ela evocará os infernos interiores dela sobre nós, trazendo morte, choro e desespero para quem já vive jogado fora da providência divina.

- Nóis num vive fora da providência, nóis tem sol e ar e água e comida – pouca, é verdade, mas tem – e nem eles, os brancos, vivem no paraíso; a doença também pega eles, a morte, a desconfiança dos irmãos e a farta de amor, que é o inferno pior que tem.

- Enquanto nóis gasta as forças que num tem, Tomé, os brancos tão na varanda olhando pra gente e tomando refresco. E quando um de nóis pára lavado em suor à beira de desmaiar, é no nosso lombo que desce a chibata, enquanto os brancos reclamam que não trabalhamos o quanto eles querem e que somos preguiçosos. Você às vezes parece que acha a nossa vida mió que a dos brancos, Tomé. Deve ter sido muito sol que você tomou na moleira!

- A vida de ninguém nessa terra é boa, Benguê, nem a de quem sofre nem a de quem faz sofrer. Nem os índios que morava aqui antes dessa brancaiada toda chegar tem vida mais boa, porque a desgraça é uma coisa que se espalha e contamina tudo ao redor.

- A nossa desgraça vai ficar muito maior com a presença dessa cobra irmã da sinhá aqui, disso você pode ter certeza!
Tomé respirou fundo olhando para ao chão, e depois encarou Benguê:

- O que você quer comigo, Benguê?

- Eu sei que você cultua os seus deuses à sua moda, Tomé, e sei que você tem um novo discípulo, o escravo da leva nova, aquele que não falava. E sei que ele tem poder ou você não estaria perdendo seu tempo com ele. Eu proponho uma aliança para livrar nossa gente de mais sofrimento; nóis precisa juntar forças porque a Filha das Cobras é também uma bruxa, embora talvez nem ela saiba disso.

- Benguê, você sabe que eu me dava muito bem com Pai Benguela, num sabe? Mas acho que você não sabe os motivos...

- Ele tinha coração mole, tratava até os filhos dos brancos, coisas que eu jamais faria, não sem pelo menos obter algo muito importante em troca...

- Pai Benguela e eu não éramos do mesmo rito, nem cultuávamos os mesmos deuses.

- Benguê parecia surpreso.

- Portanto não é a diferença de culto que me mantém afastado do seu terreiro...

- Você discorda dos meus métodos, eu sei. Mas quem remedia, Tomé, é porque não preveniu. E a vida de escravo não permite esse luxo – interrompeu, amargo.

- Eu enxergo as coisas de outra forma. Em primeiro lugar eu quero dizer que não tenho ‘discípulo’. O menino que anda comigo tem o dom da vidência e isso o assusta. Eu o batizei nas águas pra que ele tenha proteção.

- Ele tem poder, não adianta mentir, eu vejo isso. Ele poderia nos ser muito útil...

- Pode ser que tenha mesmo, mas está longe de se manifestar, por isso de nada adianta forçá-lo. Talvez futuramente ele possa ser iniciado. Quanto a mentiras... bom, se você quer mesmo entrar por esse caminho, devo dizer que o que me mantinha ligado a Pai Benguela era justamente a sinceridade dele e a firmeza de propósito. Eu não gosto de mentiras e não confio em quem mente.

- A mentira é muitas vezes a única maneira que temos de proteger nosso povo da sanha furiosa dos brancos. Pai Benguela mentia também, mentiu diversas vezes e isso eu mesmo vi, para defender os pretos!

- Pai Benguela lhe ensinou, tenho certeza, que aquele que serve aos orixás precisa ter caráter honrado, e que a palavra de um servo de orixá tem de ser uma só. Pai Benguela foi quem me explicou a salva da nossa geração, para faltar com a verdade, em caso de proteger ou salvar a vida de um irmão, e tenho certeza que ele também lhe falou sobre isso. Mas essa salva não inclui falsidade nem pode servir de desculpas para se planejar o mal de outras pessoas, mesmo sendo essas pessoas nossos algozes.

- Tomé, você parece o padre dos brancos: muitas palavras bonitas e atitudes vazias. O que faz você para ajudar nosso povo? Para auxiliar nossa gente? O mal bate à porta e você se esconde em sua choupana no meio do bambuzal, fumando seu cachimbo enquanto aqui embaixo na senzala pelo menos uma negra é estuprada por um dos homens do capataz, muitas vezes na frente dos próprios filhos ou do marido! As mentiras já há muito deixaram de ser eficazes para defender nossa gente da maldade branca. Nesse exato momento quantos escravos não estão chorando deitados em suas esteiras e redes lá embaixo, enquanto você se perde em conceitos filosóficos? Palavras bonitas, Tomé, podem até secar lágrimas temporariamente, mas não garantem a paz nem trazem a libertação do mal que nos aflige!

- As suas palavras, com certeza, são mais bonitas do que as minhas e seus métodos de persuasão seguramente mais eficazes, mas a noite se adensa e já me vou embora, visto que está claro que não entraremos em acordo hoje...

- Você prefere continuar louvando a seus deuses só do que juntar sua força e a do seu menino com as deste terreiro – acrescentou enfatizando como forma de demonstrar que não havia acreditado nas palavras de Tomé – pra livrar seu povo das presas de Maria Augusta?

Tomé se levantou calmamente e foi respondendo já caminhando para fora do terreiro:

- Você está muito mais ocupado em obter minha aliança do que me apresentar um modo positivo e efetivo para agir. A hora que você tiver um plano que nos ajude sem estar motivado por vingança e que não ocasione uma resposta contrária ainda pior, mande me chamar.

Parou para olhar nos olhos de Pai Benguê, que parecia surpreso e ao mesmo tempo estranhamente decepcionado, antes de acrescentar:

- Eu não vou me juntar às forças com as quais você trabalha para matar Maria Augusta.

Já na saída do terreiro e de costas, Tomé concluiu antes de sair:

- E não se dê ao trabalho de disfarçar para riscar sinais mágicos no chão para tentar dominar minha vontade. Não vai funcionar. Eu sei me proteger.”

Mais sobre “A História de Pai Arruda” aqui:http://edconhecimento.com.br/?livros=a-historia-de-pai-arruda

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