domingo, 13 de agosto de 2017

Os 3 Pais de Naelin

Capítulo XVIII

O GRANDE ESPÍRITO, PAI/MÃE DE TODA VIDA não falha em prover a seus filhos a NECESSÁRIA ORIENTAÇÃO.
Quantos pais a vida te deu?
A qual deles você deu mais ouvidos?
Neste conto do livro Histórias do Oriente, vemos como o mau uso do livre-arbítrio pode influenciar nos padecimentos auto-impostos de uma pessoa, pois nem tudo é karma e nem tudo está escrito.
Cada um tem um caminho para seguir, e neste caminho, a vida flui de forma mais harmônica.

Os 3 Pais de Naelin


Ilustração: Marcia Siqueira





O chakra básico invertido adoece a kundalini e leva o ser ao desequilíbrio das faculdades mediúnicas e até mesmo à loucura. Deve a mulher cuidar da sua menstruação e o homem com as hemorróidas. Toda perda de sangue anormal pela região genital abre o corpo à doença e o espírito a desequilíbrios.

18ª Lâmina do Livro de Tamur



                Tinha Naelin três pais: Deus, Nosso Senhor que está nos Céus e vibrava para ela nesses confins do universo através de sua Luz Ancestral Verde a irradiar na coroa de sua filha; seu pai terreno com quem ela resgatava débitos kármicos do passado, e seu pai espiritual de outras vidas, seu guia, com quem ela se comunicava através da mediunidade, procurando orientá-la e conduzi-la para a vitória através dessa encarnação.
                Seu pai número 3 procurava reforçar sua conexão com o pai número 1, a fim de, fortalecendo sua essência divina, torná-la menos vulnerável às ações do mal na Terra, e também livrá-la dos desenganos comuns aos médiuns, além do que, através disso, imunizá-la dos ataques morais do pai número 2, seu obsessor encarnado.
                O pai nº 1 tudo via, sentia e esperava, por sua filha senti-lo mais dentro de si e assim despertasse para as verdades maiores e deixasse de sofrer pelas dolorosas ilusões da Terra; e assim vibrava forte transmitindo sua força para o pai nº 3, também seu filho, que amorosa e fervorosamente envolvia sua amada pupila. Esta porém, só 3% absorvia de toda essa emanação.
                Já o pai nº 2, o mais fraco de todos os três, saia na frente, envolvendo Naelin em seus teias de ódio, intrigas e mentiras, que a atingiam em cheio, pois passava os dias e as noites se lamentando, temendo e muitas vezes sofrendo por antecipação ataques que talvez nem viriam se ela por eles não ansiasse com tanta certeza. E como Naelin era médium, o pobre diabo de seu pai atraiu aliados de peso na tarefa de tirar a filha do prumo e afastá-la da Luz de Deus. E assim, a inteligência que ele não tinha era suprida pelos vassalos da escuridão, e ideias cada vez mais perniciosas invadiam os recônditos de sua mente vazia, e obtinha ele 100% de sua vítima a atenção, pois infelizmente ainda é do ser humano preterir o Bem ao Mal ao atribuir valorização.
                A cada ataque do pai 2, acorria Naelin ao centro, e chorava suas lamúrias, seu cansaço, seus tormentos. Enternecidos os pais velhos a envolviam em espirituais linimentos, desprendiam-na dos miasmas, renovavam seus sentimentos, infundindo-lhes fluidos que lhe convidavam à libertação e ao renascimento.
              Todas as vezes pai 3 ali ia, conversava com o guia chefe, suplicava a Pai Grande junto ao gongá por seu rebento e todas as vezes era atendido. Incorporado na filha, descarregava seu aparelho, lhe instruindo telepaticamente como proceder para aliviar seu sofrimento.
                Mas livre-arbítrio é coisa séria e tem-se de esperar o momento, do desejo de quem sofre, de terminar seu padecimento, pois é de cada um o direito de determinar o fim do seu tormento. O Karma e a Lei existem, e quem deve não passará sem os efeitos dos atos do passado a cobrar reajuste e da vida um melhor aproveitamento, mas muitos erram ao crer que Deus é carrasco ou açougueiro, que se conforta ao ver os filhos agonizarem e se regozija com seus lamentos. Não percebem que para a Banda do Único é importante o consentimento de cada filho de fé que espontaneamente decide seguir nova vida, deixar pra trás o passado e assumir de vez a herança de filhos e filhas de um pai eternamente vivo como sois e que aguarda somente o reconhecimento de vosso próprio valor, para vos juntardes às fileiras de quem pela terra anda só para propagar Amor.
                Mas Naelin esperava que a solução caísse do céu:
                “ – Não criei para mim esses problemas; não escolhi meu pai! Deus que mo deu, que o leve!” – e ansiava por soluções mágicas como o desencarne do seu algoz ou uma miraculosa mudança nas atitudes deles, coisa que ela mesma – com todo conhecimento espiritual que tinha – por si mesma não fazia.
                E em anos que se arrastaram sem necessidade, foi perdendo a fé na religião, na vida e até em Deus, que “não via seu sofrimento” e “não interferia a favor dela”, “protegendo quem faz o mal”. Não quis mais ir ao terreiro e tentou olvidar que era médium.
                “Viva!” – gritaram os vassalos das trevas que por décadas esperaram esse momento, pois tempo é que menos lhes falta para investir em seus projetos de danação dos seguidores do Cordeiro.
                E Naelin quis “viver a vida”, como todos fazem, “curtir” o mundo, sem preocupações e restrições de espirituais fundamentos.
                Achou um outro perdido, que ela também não sabia ser preparado por quem só ciladas lhe previam de tempos em tempos. Ex-drogado e bem apessoado, senso de humor refinado, ficha policial no passado... Agora amante, amigo, aventureiro de mente aberta invejável! Com certeza sua alma-gêmea, garantiu a cartomante bem paga.
               E Naelin casou, e seu pai nº3 chorou porque sabia que sofrimento, comparado ao que viria, sua filha jamais provou.
                Mas pai nº2 gostou, pois “esse cabra tinha bufunfa”, embora de onde venha ele não se importou.
                Dezoito anos se passaram e o resumo assim ficou: o marido após quinze desses anos assassinado pelo tráfico do vício que ele de fato nunca curou; seu espírito e também o do pai desencarnado pela bebida obsidiando o lar; dos 3 filhos problemáticos, a mais velha queria aproveitar a vida para esquecer o lar infeliz em que vivia, e aos 15 já era mãe, mas quem cuidava da criança com deficiência visual, como já era de se esperar, a avó Naelin; o mais jovem sequestrado quando criança pelos desafetos do pai na disputa por pontos de venda de derrota química para os fracos, embora devolvido sem maiores danos físicos, exibia sequelas psicológicas gravíssimas, e revoltado contra a família e o mundo, peregrinava de psicólogo em psicólogo sem apresentar melhora alguma.
                Mas somente quando o filho do meio tentou o suicídio, movido pela perturbação espiritual do pai e do avô, foi que Naelin voltou a por o pé num centro, dessa vez kardecista, amparada por fiel amigo, este sim sua alma-gêmea, mas que com ela não se comprometeu em matrimônio nesta vida em consequência das escolhas infelizes e precoces da própria Naelin. Solteiro e devotado à Espiritualidade procurava auxiliá-la no mais que podia.
                Após a consulta com as entidades espirituais, Naelin novamente comparece à seara espírita para receber as orientações do entrevistador da triagem:
                 - Sra. Naelin, como está se sentindo?
                - Melhor. Essa semana consegui dormir sem pesadelos.
                - Fez o Evangelho no Lar?
                - Sim, mas meus filhos não quiseram me acompanhar.
               - Não tem importância, faça assim mesmo, e leia também páginas do Evangelho e ore nos quartos deles quando eles não estiverem.
           - Eu trouxe umas peças de roupas deles para benzer... Onde coloco?

                O entrevistador fez uma cara um tanto desgostosa:

                - Aqui não trabalhamos dessa forma. Convide seus filhos para virem tomar um passe. Isso – disse apontando com desdém para as camisetas dos filhos de Naelin – são fetiches, não têm valor algum. A senhora compreende?
                - Não... O que são fetiches?
                - Bom... – suspirou o culto entrevistador – a senhora obviamente vive uma situação familiar onde pesados carmas do passado se desenrolam em busca de reajuste. Somente à luz do Espiritismo a senhora e os seus filhos poderão compreender melhor essas questões que os envolvem e através do perdão, alcançarem a paz no lar. É muito importante que todos os membros da família compareçam ao centro para tomar passes, assistir palestras e darem início à reforma íntima.
                - É que meus filhos, eles não vêm... São adolescentes o senhor sabe, não têm interesse nessas coisas de espiritismo.
                - Veja, minha senhora, aqui nós temos evangelização infantil, grupo de mocidade espírita, onde a doutrina é passada numa linguagem adequada à faixa etária deles. Continue convidando-os e fazendo o Evangelho no Lar, afinal ninguém gosta daquilo que não conhece.
                - O senhor sabe, a culpa é minha... Quando eles eram pequenos eu levava no centro que eu ia quando era moça, levava nas Festas de Cosme e Damião, e eles adoravam, mas daí eu fui me desleixando, fui perdendo o gosto sabe, porque falavam que eu era ‘média’ e tinha de desenvolver e eu não queria, era meio revoltada, sabe? Daí nunca mais fui no centro; só agora que meu amigo André, vendo meu sofrimento, me trouxe aqui pra ver se eu tenho alguma ajuda porque as coisas estão muito difíceis e eu num sei mais o que fazer...
                - Dona Naelin, aqui nós respeitamos todas as religiões, mas é preciso cuidado com os mediunismos exagerados, sem controle, porque ocorre muito animismo, a senhora entende? Porque, veja bem, todo mundo é médium, mas a mediunidade sem estudo pode ser uma coisa perigosa, percebe?
       Naelin não percebia, nem sabia o que ele quis dizer com ‘mediunismo’.
                - Mas as coisas vão melhorar?
                - Veja bem, quando há carma, a melhora nunca é instantânea; é preciso paciência e perseverança no estudo e na reforma íntima. A senhora foi encaminhada para a desobsessão e o seu filho que tentou cometer suicídio para o tratamento à distância, e os nomes dos seus outros dois filhos estão na caixinha das vibrações. Se os três passarem a frequentar o centro, eu garanto para a senhora que haverá uma grande melhora na situação.
                Certa de que os filhos não compareceriam ao centro, Naelin sentia-se insegura com relação ao ‘diagnóstico’ do responsável pela triagem, e no seu desespero, perguntou:
                - Mas o meu caboclo disse o que pra vocês? Ele falou se as coisas vão melhorar ou me mandou algum recado? Eu costumava incorporar ele quando era nova e ia nesse centro que eu falei pro senhor, mas agora eu sei que num tenho condições de incorporar ele, mas ele falou alguma coisa? Teve algum médium lá dentro que viu ele?
                Incomodado e um tanto impaciente, o entrevistador procurou explicar que ali ‘respeitavam’ mas não trabalhavam com essas entidades mais comuns à Umbanda.
                - Mas eu vi no corredor um quadro com a figura do cacique Brogotá!
                - Esse é um caso à parte, nós oramos pedindo ajuda e a proteção de Brogotá para alguns casos específicos. Agora a senhora pode se dirigir à fila do passe e após 4 semanas de tratamento a senhora passará pela entrevista novamente.
                Naelin agradeceu e fez tudo como mandado. Algumas coisas que não entendeu perguntou a seu devotado amigo André, mas nem ele conseguiu explicar porque, apesar de ela estar fazendo tudo com a fé e o amor que só uma mãe é capaz de sentir, ela não se sentia melhor, nem os filhos apresentaram qualquer melhora positiva no comportamento.
                - Ah, André, melhorou assim, nem 10%... Eu continuo sentindo peso nas costas, e os espíritos do meu pai e do meu marido. Eu achava que pelo menos isso ia resolver. E eu queria tanto poder levar umas camisetas deles pra benzer! O homem lá pode dizer que não, mas pra mim faz um grande efeito!
             - Decerto, Naelin, em vista da gravidade da situação, o tratamento espiritual demorará mais um tempo para você perceber os efeitos.
                - Por isso mesmo, André, pela gravidade da situação é que eu acho que precisava de mais recurso! Uma defumação, uns banhos... Por exemplo: ir no centro eles não vão, mas se eu fizer uns banhos e dizer pra eles tomarem, eu tenho certeza que todos três tomam!
                - É, Naelin, eu até conheço um centro de mesa branca que aceita levar roupa pra benzer, mas é longe, no interior; mas os centros kardecistas, em geral, não trabalham com banhos e defumações. Isso é mais da Umbanda mesmo...
                - Pois vou te dizer uma coisa, André, se eu soubesse de um lugar bom de Umbanda, eu ia, sabia? Ia mesmo! Pena que aquele que eu ia fechou, porque o dono lá morreu...
                 Mas como quem ama cuida, depois dessa conversa André ficou remoendo as palavras de Naelin; falou com um, falou com outro, e com um endereço passado por uma colega, foi dar às portas de um terreiro na semana seguinte, levando Naelin pelo braço.
                - Eu não conheço aqui, Naelin. Como falei vim para te trazer por indicação, porque não aguento mais ver você sofrer e quero poder te ajudar.
              - Não se preocupe, André. Eu sinto que aqui é um lugar bom. Essa noite eu sonhei com o meu caboclo e ele sorria pra mim. Eu não lembro de mais nada, mas acordei chorando de emoção, um choro bom, de saudades, sabe?
                E começou a chorar de novo ao lembrar dos momentos vividos no astral com seu pai nº3, que há tanto tempo não via. E como nada é por acaso, era gira de caboclos, e Naelin ‘tombou no santo’ ao pisar descalça no terreiro, e após descarregá-la, Pai 3 desincorporou e conversou com o chefe do terreiro, que não apenas cruzou as roupas de seus filhos como orientou quanto aos banhos e defumações.
           Os pesadelos pararam, e numa gira de esquerda as questões principais relativas aos problemas espirituais dos 3 filhos foram resolvidas. Após um ano, a filha com a neta já frequentava, e o filho do meio que tentara o suicídio, cambonava e se desenvolvia para no futuro integrar a corrente. O mais novo só ia nas festas, mas estava bem mais tranquilo.
                Naelin foi a filha pródiga que voltou tarde para a casa de seu Pai 1, amparada pelo Pai 3, de onde, equilibrada e feliz, pôde auxiliar inclusive pai 2, mesmo tendo passado por coisas das quais não necessitava se tivesse ouvido o chamado de seus dois pais que a convidavam para a Luz, e tendo trocado um problema por 4, que juntos somaram 5, e tendo aguentado uma situação extremamente agravada da qual somente 20% era de fato karma. A voz de Pai nº1 ecoando em sua essência e muitas vezes traduzida e ampliada por Pai nº3 venceu, e ela enfim trilhou o caminho para o qual nasceu, auxiliando muitos.
                E André, que acabou se tornando o 4º pai, ou padrinho, que pela força do amor intuiu e vislumbrou a estrada que sua amada deveria seguir, por essa trilha também se encantou e cambono virou.
              E o plano original de Deus se concretizou: ele e Naelin terminarão a vida juntos, criando a netinha cega que teria vindo de qualquer forma através da primeira filha de Naelin, de quem ele deveria ter sido pai.
               Ao se precipitar e tomar o atalho errado da vida, Naelin teve mais dois filhos não previstos, atraídos ao lar pelo marido, de quem eram obsessores. O Astral avaliza essas encarnações, não previstas inicialmente, tendo em vista a situação concreta que cada um cria para si por suas escolhas, sejam certas ou equivocadas, aproveitando o precioso tempo de redenção na Terra.
               Saibamos pois que nem tudo é karma, mas que todo problema tem uma solução. E que pela perseguição espiritual em decorrência de sua própria condição de intermediador de planos, o médium é o mais propenso a se entreter nessas confusões familiares, pois raramente consegue se manter no padrão vibratório que o impermeabiliza a essas investidas do mal, que visam simplesmente desnorteá-lo a tal ponto que se veja incapaz de desempenhar a missão mediúnica de que se imbuiu no Astral antes de encarnar.
                Lembremos sempre então que orar e vigiar é bom para todos e imprescindível para quem é médium.

Gregório de Matos
Vô Felipe vem como preto-velho.
 Padre mestiço claro, evangelizador, desobsessor, trabalha para levar pelo perdão as criaturas até Jesus.
Vibra muito amor e muita compreensão.
A Força de demover Montanhas é o Amor.

Ele foi Gregório de Mattos em uma de suas existências

[Trecho do livro "Histórias do Oriente" de Jennifer Dhursaille. Adquira um exemplar digital gratuitamente mediante doação a ONG Médicos Sem Fronteira. https://jenniferdhursaille.blogspot.com.br/2017/08/historias-do-oriente.html]

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